Menu
Crônica – No Tempo das Discotecas – Livre, Leve e Solto
Colunistas

Crônica – No Tempo das Discotecas – Livre, Leve e Solto

Na crônica de Omar Dimbarre reviva o tempo das Discotecas que capturou a essência de uma era vibrante

Crônica – No Tempo das Discotecas – Livre, Leve e Solto

Compartilhe:

Por Omar Dimbarre

As noites de sábado caíam sobre a semana tal qual uma chuva torrencial cai sobre a terra em tempos de seca — eram esperadas e festejadas.  Moças e rapazes preparavam-se para brilhar, e o palco destes artistas noturnos do final dos anos 70 e começo dos anos 80 era a pista de dança.

Com os pés gingando sem parar, em passos compassados e ritmados, os atores e atrizes do tablado exibiam suas coreografias corporais — improvisadas, espontâneas ou ensaiadas.

Estávamos na era da discoteca — um tempo em que dançar era verbo imperativo: “Dance, dance, dance, dance!”. Uma epidemia, um surto de alegria que se espalhou e contagiou o mundo; a disco music moldou comportamentos e estilos.

A noite era uma festa; momento de soltar o corpo e extravasar.  Era dançando que as pessoas sacudiam a poeira do cansaço impregnada na pele — acumulada por uma semana de trabalho árduo.

Luzes coloridas piscavam incansavelmente, refletindo seu brilho no chão, lembrando um caleidoscópio com imagens fragmentadas. No centro do teto, um globo espelhado — revestido por centenas de pequenos pedaços quadrados ou retangulares de espelho — girava sem parar.

Pulsos de luz curtíssimos e ultrarrápidos intercalavam-se com momentos de escuridão total, transfigurando os movimentos frenéticos dos braços e das pernas; o mundo ao redor girava em câmera lenta.

Boney M., Village People, Dee D. Jackson, Donna Summer, Bee Gees, Santa Esmeralda, Giorgio Moroder, ABBA e Frenéticas se revezavam no toca-discos — corpos vibrando em transe. Suor e euforia.

“A noite vai chegar, o mundo está tão longe”, cantava Lady Zu; as aflições, os receios e as inquietudes magicamente desapareciam. Rebentava um universo de êxtase e harmonia. A vergonha de balançar o corpo publicamente — de ser analisado por olhares censuradores pela forma de se expressar — ficava em casa. Éramos todos mestres do molejo, todos donos do pedaço: reis da noite.

Chegava, então, o momento mais aguardado pelos enamorados: as luzes estroboscópicas e os reflexos coloridos eram desligados. Uma penumbra leve invadia o ambiente enquanto uma música lenta iniciava. Casais entrelaçavam os braços, colavam os rostos e, agarradinhos, giravam suavemente; juras de amor, carícias e beijos eram trocados no escurinho — ali nasciam e se consolidavam paixões.

Promoviam-se concursos de dança, onde casais talentosos exibiam seus dotes. Os movimentos valiam-se da originalidade e da criatividade da dupla. Um dos passos mais aplaudidos era conhecido como ‘túnel’ — o homem abria as pernas e a mulher, deslizando pelo chão, passava por baixo. Ao sair do outro lado, era puxada de volta pelas mãos do parceiro, erguendo-se para prosseguir com o espetáculo. Havia também o ‘estica e puxa’, em que ambos se seguravam por uma mão, afastavam-se com os braços esticados e, no tempo certo da música, puxavam-se novamente.

Não havia computadores, celulares, redes sociais ou locadoras. O programa para o fim de semana era dançar ou ir assistir a um bom filme. Muitas vezes, as duas coisas — sábado remexendo o esqueleto, domingo no escurinho do cinema.

Foi também a época das festinhas americanas realizadas em casas particulares. Todo mundo entrava; não era necessário conhecer o dono da residência. Bastava chegar com uma garrafa de bebida destilada ou um prato de salgadinhos — canudinhos recheados com maionese, espetinhos de queijo, pepino, pão de forma em cubo e salsicha ou canapê de atum

O povo ia chegando e se juntando no maior alto-astral. Rolava muita vodca e cachaça com Coca-Cola e todo mundo requebrava junto em sintonia. Era tanta gente reunida que algumas vezes o assoalho chacoalhava, como se um terremoto estivesse sacudindo a cidade.

O galo então cantava — hora de encerrar a celebração. Depois de um descanso, tirando uma merecida soneca, saltávamos da cama e ligávamos o rádio: nossas casas eram inundadas por “Rivers of Babylon”, “Automatic Lover”, “Y.M.C.A.”, “Stayin’ Alive”, “ Don’t Let Me Be Misunderstood”, “I Feel Love”, “Too Hot to Handle” , “Dancing Queen” e “Perigosa”

“Amada mia, amore mio, amada mia, amore mio …. la la la la la – la la la la la”

A onda disco assolou o mundo. Gilberto Braga, o célebre autor de novelas, entrou no ritmo e Dancin’ Days fez história na teledramaturgia brasileira. Sônia Braga brilhou na pele de Júlia de Souza — sua personagem ditou comportamento: as meias de lurex brilhantes usadas com sandálias de salto alto e as roupas de cetim e tecidos cintilantes popularizaram-se entre as mulheres que festejavam na balada.

Faltava um ícone, um ídolo para aquela época. Lançado nos cinemas norte-americanos em dezembro de 1977, “Os Embalos de Sábado à Noite” (Saturday Night Fever) chegou com estrondoso sucesso. John Travolta, interpretando o personagem Tony Manero, sintetizava o espírito daquela geração.

O filme estreou no Brasil em julho de 1978. Sessão das 19 horas, no domingo, com o Cine Avenida lotado. Fila dobrando a esquina para comprar ingresso. As 732 poltronas estavam ocupadas. O frenesi era tanto que várias pessoas não se importaram com a falta de cadeiras vagas e assistiram ao filme sentadas no chão.

Da tela grande para as pistas — os trejeitos e o gingar de Tony Manero eram copiados minuciosamente. Ser chamado de “John Travolta” era o atestado definitivo de que o protagonista noturno gingava muito bem.

A época da discoteca, como tudo, foi engolida pelo tempo — mas jamais será tragada pela memória de quem vivenciou aquela era. O saudosismo, a vontade de reviver aqueles momentos de liberdade, muitas vezes rebenta no peito. Então, aquela velha canção que explodiu na TV, nas rádios e nas pistas de todo o Brasil emerge, e seus versos ecoam em minhas lembranças: “Abra suas asas, solte suas feras, caia na gandaia, entre nessa festa… Me leve com você pro seu sonho mais louco…”.

Foto de Éder Luiz

Éder Luiz

Com 30 anos de experiência na comunicação, Éder Luiz construiu uma carreira sólida nas principais rádios, jornais e emissoras de TV do sul e do Brasil, tornando-se uma referência no jornalismo regional. Em 2010, fundou o Portal Éder Luiz Notícias.


Compartilhe: