Banalização da saúde mental gera alerta de especialista
Falar sobre traumas na internet substitui a terapia? Psicólogo alerta para os perigos de transformar a saúde mental em tendência
A popularização de termos como “trauma” e “gatilho” em conversas cotidianas e nas redes sociais em Santa Catarina e em todo o país motiva um alerta atual de especialistas. O psicólogo Jair Soares dos Santos adverte que transformar a saúde mental em tendência esvazia a gravidade clínica dos diagnósticos, pois as pessoas passam a substituir o tratamento profissional por desabafos em mesas de bar e vídeos na internet.
Embora o fim do tabu em torno do tema seja positivo por facilitar o acesso à linguagem emocional, o fenômeno traz distorções graves. Apenas em plataformas de vídeo, o assunto ultrapassa milhões de visualizações. Segundo o psicólogo, o sofrimento tem se tornado um produto cultural, e a terapia, muitas vezes, é tratada como uma estética em vez de um compromisso com transformações profundas.
O especialista alerta que há uma grande diferença entre falar sobre a dor e elaborar o problema. Nos ambientes informais, como encontros com amigos, os relatos surgem mais pela necessidade de aprovação e pertencimento social do que pela busca de cura. A vulnerabilidade exposta nesses espaços é apenas narrada, não processada, o que não substitui a eficácia da psicoterapia.
Outra preocupação apontada é a romantização do autocuidado. O profissional esclarece que cuidar de si mesmo não é um processo leve, mas exige enfrentar desconfortos, revisitar memórias difíceis e estabelecer limites. Ele ressalta que evitar o que dói não é cuidado, mas uma forma de anestesia emocional.
Por fim, a transformação da própria dor em conteúdo digital pode fazer com que a pessoa fique presa à identidade de vítima. Embora o desejo humano por apoio seja legítimo, o psicólogo conclui que a verdadeira reorganização emocional exige contato íntimo consigo mesmo e suporte técnico, e não apenas o aplauso ou a validação de uma audiência externa.
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