Cine Gracher – 110 anos de História
O Colunista Omar Dimbarre revela a história deste importante ícone da cultura catarinense. o Cine Gracher comemora 100 anos!

Os passos desajeitados, quase perdidos dentro de enormes sapatos, de um homem pequeno em estatura, mas grandioso em talento, acabavam de entrar em cena. Trajando calças largas, um paletó preto apertado e um chapéu-coco, miúdo demais para acomodar sua cabeça, segurava em suas mãos uma bengala de bambu, conferindo-lhe um ar de cavalheiro.
Seu pequeno bigode, postiço e estático, contrastava com sua boca e seus olhos, que, movimentando-se intensamente, expressavam suas emoções. Carlitos, o personagem mais icônico da história do cinema, criado pelo genial Charlie Chaplin, surgiu em 1914. Abraçou o mundo e foi abraçado por ele, deixando no palco da sétima arte as marcas de suas pisadas, tão profundas que os ventos soprados pelo tempo jamais as apagarão.
Cine Esperança
Milhares de quilômetros distantes de Hollywood, a cidade de Brusque, escondida entre os verdejantes morros que se erguem onde serpenteia o rio Itajaí-Mirim, foi inserida no fabuloso universo cinematográfico por Carlos Gracher, em 1915. Enquanto isso, o vagabundo mais lendário da história iniciava sua trajetória.
A falta de um local próprio não impediu o visionário empresário de possibilitar aos cidadãos de sua cidade mergulharem na magia que as imagens projetadas em uma tela grande proporcionam. Suas primeiras sessões eram itinerantes, porém, não tardou, e o Cine Esperança foi instalado em anexo ao Hotel Schaefer.
Germinada em 1895, a sétima arte ainda engatinhava e seu filho mais brilhante rebentava, quando o Cine Gracher, outrora conhecido como Cine Esperança, iniciou sua jornada. Apenas dois anos antes, a amarelada luz que irradiava dos lampiões que se acomodavam pelos postes que margeavam as ruas e sobre as mesas das casas que compunham a paisagem da cidade havia sido substituída pela energia elétrica. Brusque tinha pressa.
Um som metálico, agudo e curto, ecoava pelo corredor e chegava até a rua, iniciando um ritual que anunciava que a exibição estava prestes a começar. Um menino tocava a sineta, mas o filme só rodava após a chegada do delegado e dos cinéfilos mais assíduos. Em uma época em que a infraestrutura era bastante rústica, com estradas de terra, o caminho que hoje parece curto, se tornava longo e desafiador, praticamente uma aventura. Mas não tinha obstáculo que impedisse Seu Carlos de cumprir com o que havia sido anunciado. Caso o filme não chegasse, alugava um carro ou apanhava um dos dois táxis que ficavam estacionados em frente à praça e partia buscá-lo na distribuidora em Blumenau ou Itajaí.
Cine Guarany
O tempo seguiu moldando paisagens, costumes e comportamentos, seguindo seu trajeto, como um rio que corre em direção ao mar. A arte de atuar personificada por gestos, olhares e expressões corporais exageradas, ganhou voz. E o Cine Esperança ganhou um novo local e um novo nome
Quase duas décadas se passaram, quando em 3 de março de 1934, o som, tal qual um trovão que rasga o silêncio da noite, explodiu no Cine Guarany. Localizado em uma das primeiras casas construídas na Avenida Cônsul Carlos Renaux, a artéria principal que impulsiona o crescimento do Berço da Fiação Catarinense, onde hoje localiza-se o Hotel Gracher.
E se o tempo é o motor que conduz a história, a ópera, uma arte secular se transfigurou em cinema, e invadiu a tela grande, através do filme “A Voz do Meu Coração”, uma comédia musical e romântica de 1932, dirigida por Anatole Litvak.
Cine Real

O preto e o branco, ganharam uma aquarela de cores, pintando e modelando as telas, e assim, envolvida pelo tempo, seguiu a evolução da sétima arte. E avançando junto com ela, seguiu o cinema da família Gracher.
500 cadeiras passaram a compor o cenário, que foi completamente remodelado e era enriquecido pela euforia do público, que emocionado, entre risos e lágrimas, lotava as sessões. Em 1949, agora com o filho Arno Carlos Gracher, somando forças, nasceu o Cine Real. Suas sessões eram anunciadas com música em alto-falantes embutidos na fachada do cinema.
A vida imita a arte... E a arte imita a vida.
Em 1952, tal qual no filme "Cinema Paradiso" (lançado em 1988), um incêndio começou na cabine de projeção enquanto "Sensação no Circo" era exibido. A plateia, embriagada nas imagens, inicialmente acreditou que as chamas faziam parte do filme, que era consumido pelas labaredas. O incidente resultou no fechamento do espaço por um tempo.
Cine Teatro Real
Sendo o tempo a força que conduz a evolução, em 1956 o cinema foi demolido, e das suas cinzas nasceu em 1957, e com 1250 lugares, a sala mais moderna de Santa Catarina: O Cine Teatro Real.
“Tudo Que o Céu Permite”, com Rock Hudson, do diretor Douglas Sirk, um retrato atemporal da luta por liberdade pessoal contra as amarras do preconceito, inaugurou o novo espaço.
Campanha Semana das Crianças

Uma parceria filantrópica entre o Cine Teatro Real e o Lions Clube marcou o ano de 1966, em Brusque. A “Campanha Semana das Crianças” possibilitou que crianças carentes do município tivessem um dia de diversão, alegria e cultura. A magia de um filme na tela grande, com o prazer de estar na sala de cinema, marcou para sempre a vida daquelas crianças.
Outras Sessões Beneficientes
Natal, Campanha do Agasalho e sessões premiadas com sorteios de brindes como bicicletas, faziam do cinema uma das principais atividades sociais e de lazer da cidade.
Cine Gracher
42 anos depois… A vida voltou a imitar a arte… Ou a arte, depois, voltou a imitar a vida.
Tal qual no filme brasileiro “O Filme da Minha Vida”, em que a cidade fictícia de Remanso, no Rio Grande do Sul, perde seu único cinema, Brusque seguiu o mesmo caminho entre 1994 e 1999.
O período marcou o fechamento do cinema na cidade, para a construção do Shopping Gracher. Um vazio, tal qual a ausência de um familiar na hora do almoço, que só foi preenchido com a reabertura do novo cinema. A moderna sala trouxe mais conforto e sessões diárias ao público, com modernos equipamentos de projeção em 35mm.
Em 2005, a assinatura da família que tanto fez pela cultura brusquense foi incorporada definitivamente ao nome do cinema.
Parceria com a Havan
Como a liga de dois metais que se fundem para ficarem mais fortes, em 2013, nasceu a parceria entre o Cine Gracher e a loja de departamentos Havan. Uma união que impulsionou a expansão da rede.
A colaboração começou quando um novo complexo do Cine Gracher foi inaugurado dentro da loja Havan de Brusque, servindo de modelo para o crescimento futuro da empresa que, em 2015, celebraria 100 anos de sua primeira incursão na sétima arte.
Realidade atual
A rede Cine Gracher possui atualmente 34 salas divididas entre os complexos, nas cidades de Brusque-SC, Porto União-SC, Pato Branco-PR, Arapongas-PR e Indaial-SC, Joaçaba-SC, Porto Belo-SC, São Bento do Sul-SC e Canela-RS. Todas contam com tecnologia de ponta.
110 Anos de História
Neste dia 29 de agosto, o Cine Gracher completa 110 anos de existência. Neste período o cinema riu junto com Chaplin, viu o gigante King Kong despencar do Empire State e testemunhou Cidadão Kane revolucionar a linguagem cinematográfica.
Gene Kelly sapateou enquanto a chuva caía, 2001 se tornou uma Odisseia no Espaço e um Tubarão aterrorizou as plateias do mundo inteiro, enquanto a história do Cine Gracher era construída.
Os olhares fascinados de seus espectadores testemunharam um intenso duelo de sabres de luz entre Luke Skywalker e Darth Vader, Indiana Jones encontrar a arca perdida e Marty McFly entrar em um DeLorean e voltar para 1955.
O Cine Gracher completa 110 anos de história… Dinossauros chegaram a retornar à vida, e duas Fernandas conquistaram o mundo.
A história do Cine Gracher é também a história da sétima arte.

Omar Dimbarre é produtor cultural, colecionador de cartazes originais de cinema, minerais e fragmentos de meteoritos. É apaixonado por artes — especialmente música e cinema —, fascinado pela natureza e por histórias populares, desenvolvendo projetos que visam recuperá-las.
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