Conto – O Canto do Urutau
Um jovem decide derrubar a árvore histórica de seus avós, mas descobre que algumas raízes são profundas demais para serem cortadas.
Por Omar Dimbarre
O antigo relógio, que ainda se mantinha pendurado na parede da sala, bateu cadenciadamente sete vezes. Era um sábado quente, e as luzes do verão já haviam se esparramado pelo quarto há um bom tempo. Amadeu espreguiçou-se, e em um salto rápido pôs-se em pé.
O casarão, erguido em um passado distante, estava fincado aos pés de uma colina que irrompia ao lado de uma sanga. Arbustos, flores silvestres e uma trilha rodeada por pequenos cristais de quartzo, colhidos na redondeza, compunham a sua paisagem. No alto, uma grande árvore seca, que insistia em não tombar ao solo, espreitava toda a região.
Contava-se que, em noites de tempestade muito forte, ouviam-se murmúrios vindos de lá. Muitas fábulas surgiram, afirmando tratar-se do espírito da árvore, que tentava desesperadamente voltar à vida quando a água inundava o solo que a cercava.
Era um cinamomo, plantado pelos avós de Amadeu, Iracema e Augusto. Sob sua sombra erguia-se um banco rude de madeira. Ali, seus ancestrais costumavam namorar ao pôr do sol, enquanto contemplavam o vale. O cenário que se vislumbrava de lá era fascinante: uma planície dourada de trigo, cercada por flores silvestres e atravessada por um riacho serpenteante.
Após a colheita do cereal, Iracema preparava em seu forno de tijolos muitos pães. Num ritual que se tornou parte da cultura local, ela percorria a vizinhança de porta em porta, distribuindo um para cada família.
Um dos galhos da grande sentinela verde ainda mantinha um balanço envelhecido, responsável por embalar momentos de ternura e afeto ao longo de sua existência. Os cabelos brancos do casal, tingidos pelos anos de vivências, foram testemunhas dos momentos lúdicos que aconteceram à sombra da grande árvore.
Aquele gigante de madeira, que acompanhou tantos momentos de carinho e contemplação vividos por Iracema e Augusto, começou a secar tão logo eles encerraram, juntos, sua jornada neste mundo. Ninguém sabe ao certo o que houve com eles. Foram encontrados mortos, abraçados em seu leito, pelo neto, durante uma visita. Os médicos disseram apenas que, de repente, o coração dos dois parou.
Amadeu perdeu os pais em um acidente de carro quando ainda era muito moço. Sozinho, debruçou-se nos estudos, dedicando-se apenas às conquistas financeiras que lhe prometiam um futuro cômodo. Como único descendente, herdou o imóvel dos avós e, em busca de ampliar tais realizações, mudou-se para lá.
Um urutau fazia companhia ao Cinamomo. Suas penas, da cor da madeira envelhecida, confundiam-no com o tronco, e ele só se tornava visível quando alguém chegava muito próximo. Era como um fantasma, oculto atrás de um móvel, aguardando a hora certa para aparecer.
Seu canto melancólico, em busca de uma companheira, ecoava ao longe. Em noites de lua cheia, prolongava-se por toda a madrugada. Em certas ocasiões, pausava seu queixume à espera de uma resposta que nunca vinha. E depois retornava a entoar sua triste cantiga.
Os viventes daquele rincão acreditavam que o pássaro vocalizava o sofrimento da árvore, saudosa dos eternos enamorados. Ele era o guardião daquele recanto de memórias.
Iracema e Augusto não estavam mais presentes, mas seus abraços, seus beijos, suas promessas permaneciam impregnados no local. Como se suas risadas e seus sonhos tivessem se eternizado à sombra da anciã protetora.
Iracema gostava de cantar para o seu amado. Augusto passou a acompanhá-la, dedilhando o seu violão. Às vezes, o dueto se prolongava por horas, até que a lua, arrebatada, viesse contemplá-los. Naqueles anos perdidos no tempo, suas vozes se espalhavam pela campina, embalando os devaneios de quem os escutava. Promessas e juras de amor ao pé do ouvido foram feitas, acalentadas pelas cantigas que eclodiam do alto da colina.
O assento de madeira suspenso pelas cordas presas no galho da árvore acolheu, por tantas vezes, ora Augusto empurrando Iracema, ora Iracema empurrando Augusto. E quando os vizinhos visitavam o casal com seus pequenos, a criançada também voava pelos ares.
Amadeu instalou-se no lugar com a cabeça cheia de ideias. Entre seus vários planos, estava a derrubada do antigo casarão e o loteamento de toda a área.
As histórias contadas pela vizinhança o incomodavam. Costumava rir da lenda de que a velha árvore guardava sentimentos e havia secado pela saudade de seus avós. Para ele, não passava de um tronco velho, que precisava ser retirado.
A decisão se espalhou pela redondeza, e os moradores tentaram dissuadi-lo de seu intento. Bateram à sua porta e suplicaram que reconsiderasse.
Aquele lugar era sagrado para a comunidade: o Cinamomo, o banco e o balanço eram os últimos vestígios de uma época fascinante, que acabou engolida pelo tempo.
Eram o registro vivo de momentos de ternura que encantaram e moldaram a vida das pessoas que ali viviam. Um coral, inspirado nos cânticos apaixonados que varriam aquelas paragens, aflorou. Vozes da vizinhança reuniam-se todo sábado à noite no salão da capela.
O ato de oferendar alimentos tornou-se tradição, transfigurando-se em uma festa anual, onde cada família trazia um alimento, e todos partilhavam juntos uma ceia. Derrubar a árvore, o banco e o balanço seria como aniquilar a própria alma daquele povo.
Mas o jovem irrequieto mostrou-se irredutível. No dia seguinte, munido de uma motosserra, pôs-se a subir a colina logo que o sol rebentou no horizonte. O dia estava bonito, com o céu completamente tingido de azul. Tão logo iniciou sua jornada implacável, o Urutau saiu do esconderijo e passou a sobrevoar a árvore, gritando como quem clama por socorro.
Amadeu imobilizou-se. Olhou para o pássaro, mas aquela dança fúnebre não o comoveu. Prosseguiu. Um vento forte passou varrendo tudo ao redor e trouxe consigo nuvens carregadas, que se acomodaram sobre a colina.
Decidido firmemente a cumprir seu desejo, apurou o passo. Parou diante da grande guardiã e, com a motosserra em punho, preparou-se para desferir o primeiro golpe. Antes de feri-la, gotas de água escorreram de seus galhos.
Estupefato com o que presenciara, parou com o instrumento suspenso no ar. Olhou para o céu negro; mas ainda não havia começado a despejar seu aguaceiro sobre a terra.
Por um instante, hesitou. Mas logo decidiu prosseguir com seu objetivo. Quando avançou novamente para dilacerar a árvore, um raio rasgou os céus atingindo a motosserra e arremessando-a para longe.
Então, a natureza furiosa despejou seu lamento sobre a terra. Amadeu caiu ao chão, desconcertado. Ergueu-se e correu para dentro de sua residência. Passou o dia inteiro refletindo sobre o que havia presenciado.
Subiu novamente a colina, mas agora para recolher seu equipamento. Quando apanhou-o do chão, notou que alguns ramos verdes haviam brotado no Cinamomo. A silenciosa sentinela estava de volta, pronta para vigiar o vale.
Ao iniciar a descida do morro, avistou dois pássaros rondando a árvore. O Urutau, enfim, havia enlaçado sua namorada.
Amadeu compreendeu o recado e o significado daquele recanto para os moradores e para a história daquele povoado. Desistiu de levar adiante seus propósitos, e transformou o local em um santuário de memórias.
Os meses passaram, e o Cinamomo ficou completamente verdejante. O casal de urutaus estabeleceu nele sua morada.
Reza a lenda que os espíritos de Iracema e Augusto vivem agora nos dois pássaros. Quando a lua chega de mansinho para espiar, ouve-se o ranger do balanço. O Urutau, outrora solitário, inicia sua canção. Ao pausar sua melodia, sua amada lhe responde, e juntos seguem com a cantoria, noite adentro. Quando os primeiros raios de luz começam a despontar por detrás dos montes, encerram a serenata. Alçam-se ao ar e, deslizando por todo o vale, saúdam o novo dia nascente. Então, recolhem-se em seu refúgio, e adormecem.

Omar Dimbarre é produtor cultural, colecionador de cartazes originais de cinema, minerais e fragmentos de meteoritos. É apaixonado por artes — especialmente música e cinema —, fascinado pela natureza e por histórias populares, desenvolvendo projetos que visam recuperá-las.
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