Do pinhão ao vinho de altitude: como a cozinha catarinense está redescubrindo o que sempre teve dentro de casa
Explore a culinária de Santa Catarina. A gastronomia de SC valoriza ingredientes locais para uma experiência única e autêntica.
Éder Luiz
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Há uma virada acontecendo nas cozinhas de Santa Catarina. Ela não é barulhenta, não está nos holofotes de nenhum reality show, mas se manifesta em cada restaurante que decide trocar o vinho espanhol pelo Cabernet Sauvignon da Serra; em cada chef que substitui o ingrediente importado pela linguiça de pinhão feita a poucos quilômetros de distância; em cada pousada que coloca o café colonial com produtos da colônia vizinha no centro da experiência do hóspede. O movimento tem nome: valorização do território. E em 2026, ele está mais forte do que nunca.
A lógica é ao mesmo tempo simples e revolucionária. Santa Catarina recebe turistas do Brasil inteiro e do mundo. O que essas pessoas buscam quando viajam, cada vez mais, não é o que podem encontrar em qualquer lugar — é o que só existe ali. E o estado tem muito a oferecer: um mapa gastronômico que vai do litoral açoriano repleto de ostras e tainhas à Serra de pinhões, entreveros e vinhos de altitude, passando pelo Vale europeu de embutidos artesanais e cucas de forno a lenha, pelo Meio-Oeste dos chocolates tiroleses e pela colônia italiana de polentas e queijos.
O Protagonismo do Ingrediente Local
Para Felipe Silva, chef do Osli Restaurante em Florianópolis, a gastronomia caminha para uma mudança clara de comportamento. “Comer bem deixa de ser sobre surpresa e passa a ser sobre sentido”, defende. Essa filosofia se traduz em cardápios mais enxutos, com no máximo três elementos por prato, foco no produto puro e apresentações minimalistas — uma tendência que os topos das listas gastronômicas mundiais já ditam e que começa a se firmar com força em Santa Catarina.
A chef Dani Damasceno, do Awasi Santa Catarina — antigo Ponta dos Ganchos, em Governador Celso Ramos —, aposta em uma gastronomia conectada aos pequenos produtores, pautada pela consciência climática e pelo respeito aos ingredientes. O caminho é o mesmo que outros chefs do estado percorrem: construir uma identidade autoral a partir do que a terra oferece, ao invés de copiar referências externas.
“O que tenho pensado bastante é que recebemos visitantes do Brasil inteiro e do mundo aqui. Então qual o sentido de eu oferecer um vinho espanhol no meu restaurante, sendo que estou no Brasil e o que a pessoa quer quando viaja é conhecer algo local?” — Chef de restaurante em Florianópolis, em entrevista à revista Upiara
O Pinhão: da Beira de Estrada à Alta Gastronomia
Símbolo maior da Serra Catarinense, o pinhão — semente da araucária — sempre foi consumido cozido na beira da estrada nos meses de outono e inverno. Hoje, ele ganha protagonismo crescente na gastronomia de referência. O entrevero de pinhão, prato dos tropeiros feito em disco de arado com múltiplas carnes e a semente como ingrediente central, virou carro-chefe de restaurantes em Rancho Queimado, Lages e São Joaquim. A paçoca de pinhão — versão salgada e robusta que remonta ao século 19 — aparece em menus que honram a memória afetiva da região.
Mas a reinvenção vai além. Produtores artesanais da Serra, como os da charcutaria certificada pelo Selo Arte, criaram uma linguiça autoral que coloca o pinhão dentro da tripa — uma linguiça de entrevero que nasceu da observação simples de que o que vai bem na panela pode ir bem no embutido. Cada rótulo carrega referências à história local e às origens da colonização, transformando o produto em narrativa. A truta, criada nas águas frias da Serra, aparece cada vez mais defumada, harmonizada com o próprio pinhão ou com as amêndoas das pequenas propriedades da região.
O Vinho que a Serra Inventou
Nenhum ingrediente local representa melhor essa virada do que o vinho de altitude. Há pouco mais de uma década, a ideia de produzir vinho fino acima dos 900 metros de altitude na Serra Catarinense soava improvável. Hoje, é um setor que não para de crescer — e que está reescrevendo o mapa vitivinícola do Brasil.
A 12ª Vindima de Altitude de Santa Catarina, aberta em março de 2026 em São Joaquim, reuniu produtores, autoridades e mais de 15 mil visitantes no Vinho & Arte Festival. A safra 2026 projeta a produção de aproximadamente 1 milhão de garrafas — e o setor emprega cerca de 800 pessoas, distribuídas entre atividades de campo, turismo e operações administrativas. As vinícolas se distribuem por municípios como São Joaquim, Videira, Urubici, Urupema, Campo Belo do Sul, Rancho Queimado e Bom Retiro, onde Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir, Chardonnay e Sauvignon Blanc ganham o caráter único do terroir frio e da amplitude térmica de altitude.
Os Vinhos Finos de Altitude da Serra Catarinense carregam, desde 2021, o Selo de Indicação de Procedência — garantia de origem, qualidade e autenticidade que os diferencia no mercado nacional e abre portas para o exterior. O faturamento do setor saltou de R$ 7,5 milhões para R$ 44,8 milhões em dez anos, com ganho de 88% na receita por hectare, o que reflete não apenas volume, mas qualidade crescente.
Um Estado, Muitos Sabores
O mapa gastronômico de SC — o que cada região oferece
Em Treze Tílias, no Meio-Oeste, os tiroleses que chegaram na década de 1930 trouxeram consigo a receita do chocolate caseiro — e a cidade até hoje é referência nacional no produto. Em Brusque, a tradição do marreco recheado da colonização alemã ganhou espaço nos cardápios de restaurantes sofisticados. No litoral, as ostras de Florianópolis — a capital nacional do molusco — já são servidas com harmonizações que incluem vinhos catarinenses de altitude.
O Selo Arte, iniciativa federal que certifica produtos artesanais de origem animal, tem sido um instrumento de formalização e valorização para produtores que faziam da tradição um negócio informal. Linguiças de pinhão, queijos serranos, marrecos recheados e outros produtos com o selo chegam agora a consumidores de outros estados, levando na embalagem a identidade catarinense.
O Que Está Por Vir
A grande aposta da gastronomia catarinense para os próximos anos é a consolidação de um turismo de experiência baseado na origem. Vinícolas que já oferecem hospedagem, jantares harmonizados, piqueniques nos vinhedos e pisa da uva; fazendas serranas com café colonial de produção própria; restaurantes com horta no quintal e cardápio que muda conforme a estação — tudo isso aponta para um modelo gastronômico que vai além do prato e se torna uma forma de conhecer o território.
Para quem visita Santa Catarina, a recomendação dos chefs é simples: pergunte de onde vem o que está no prato. Se a resposta vier da própria região, você está no caminho certo. A cozinha catarinense nunca precisou olhar para fora para ser boa. O que está acontecendo agora é que ela finalmente parou de duvidar disso.
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