A Raiz Negra do nosso Carnaval: Como Maria dos Prazeres e os “batuques” da ferrovia moldaram a folia em Joaçaba e Herval
Relatos mostram como trabalhadores da estrada de ferro e Maria dos Prazeres plantaram a semente do samba.
Enquanto as escolas de samba se preparam para o espetáculo de 2026, um olhar para o passado revela que o brilho da Avenida XV de Novembro tem raízes muito mais profundas — e místicas — do que muitos imaginam.
Graças ao registro histórico presente no livro “Joaçaba Samba e faz escola desde 1934”, escrito pelo carnavalesco Jorge Zamoner e pelo saudoso jornalista João Paulo Dantas, podemos remontar ao verdadeiro embrião da nossa folia. O livro traz depoimentos raros de Dona Maria dos Prazeres, figura central que, segundo os autores, ajudou a tecer a “colcha de retalhos” que explica como o samba floresceu em uma região de colonização europeia.
A Chegada do Samba pelos Trilhos do Trem

Os relatos apontam que o ritmo chegou a Herval d’Oeste e Joaçaba não pelo rádio, mas pelas mãos dos trabalhadores que vieram construir a Estrada de Ferro. Eram pessoas que, nos momentos de folga, buscavam refúgio em suas tradições: o “batuque”, a banda e o candomblé.
Segundo o depoimento de Dona Maria registrado no livro, esses terreiros em Herval d’Oeste serviam como ponto de encontro onde, “durante muito tempo, teve uns terreiros… e como essas pessoas gostavam de samba, eu acredito que elas ajudaram bastante no gosto do pessoal daqui pelo carnaval”.
Vila Operária: O Berço Mágico
O livro destaca a região da antiga Vila Operária (hoje Bairro São Vicente, em Herval d’Oeste) como um polo cultural vibrante até os anos 40. Ali existia um misto de “magia e malandragem” em torno do terreiro de candomblé Casa Nova Era, presidido pelo Clube Jacaré de Bronze.
O terreiro era dirigido por Manoel de Oliveira Nunes, pai de Dona Maria dos Prazeres. Baiano de origem, ele deixou um legado espiritual e cultural que sua filha transformaria em arte.

Quem foi Maria dos Prazeres?
Muito mais que uma personagem de enredo, Maria dos Prazeres foi a personificação dessa transição entre a religiosidade e a festa profana. O livro revela que ela foi uma das “mães de santo” mais atuantes nas manifestações afro-religiosas em Herval d’Oeste, embora, em seus depoimentos, tentasse com certa ingenuidade esconder esse fato devido ao preconceito da época.
Ela se tornaria a primeira Porta-Bandeira da Unidos do Herval, além de Rainha e Baiana da escola. Foi sua memória prodigiosa que permitiu a Zamoner e João Paulo reconstruírem essa história, que inclui personagens inesquecíveis citados na obra.
Um Documento Precioso
A obra de Zamoner e Dantas identificou um “veio histórico precioso”, mostrando que, apesar das dificuldades de organização e do preconceito social e racial da época, a população negra conseguiu amenizar a situação através das escolas de samba, fecundando o embrião do que viria a ser o Carnaval de Joaçaba.
Ao resgatar essas páginas, não apenas contaram a história, mas celebraram a resistência e a alegria daqueles que, muito antes dos holofotes da TV, já faziam da nossa terra um lugar de samba.
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