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Quase metade das pessoas já se sentiu trocada pelo celular
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Tecnologia

Quase metade das pessoas já se sentiu trocada pelo celular

Uso do aparelho sem limites afasta casais, mas combinados podem transformar a tela em aliada da relação

Phubbing: jovem sentada sozinha em escadaria, com expressão triste, enquanto rapaz ao lado usa o celular
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O celular vibra e a conversa para. Acontece no jantar, no sofá, na cama e até no primeiro encontro. O aparelho não faz parte da relação, mas ocupa espaço nela. Quando é usado sem limites, pode custar muito mais do que alguns minutos de atenção.

Esse comportamento, muito mais frequente do que gostaríamos de assumir, ganhou até nome: phubbing, a junção das palavras inglesas phone (telefone) e snubbing (ignorar, desprezar). É quando alguém prioriza a tela durante uma interação presencial e deixa o parceiro em segundo plano.

Um estudo dos pesquisadores James Roberts e Meredith David, publicado na revista científica Computers in Human Behavior, analisou o impacto desse hábito em relacionamentos amorosos. Entre os entrevistados, 46,3% disseram já ter sido ignorados pelo parceiro por causa do celular, e 22,6% relataram conflitos provocados pelo comportamento. Os pesquisadores observaram ainda que a queda na satisfação com o relacionamento se reflete na satisfação com a própria vida. Quando a atenção sai de quem está ao lado e vai para a tela, a conexão emocional tende a enfraquecer.

O problema, porém, não está no aparelho, já que é pelo celular que muitos casais mantêm contato durante o dia, organizam a rotina, encurtam distâncias e, cada vez mais, se conhecem. A questão é o espaço e o tempo que ele passa a ocupar quando não existe nenhum combinado sobre isso.

Se combinar direitinho… ninguém se frustra

O meio liberal, formado por casais e solteiros que buscam encontros casuais ou relações não monogâmicas, conhece bem essa lógica. Nesse universo, os acordos costumam ser explícitos: o que é permitido, o que não é, como e quando conversar sobre isso. E o celular tem um papel central antes de qualquer encontro. Um levantamento do ysos, aplicativo brasileiro voltado a esse público, mostra que 64% dos usuários consideram “conversar muito” uma etapa essencial antes de se encontrar com alguém. É na tela que as expectativas são alinhadas, os desejos compartilhados e os limites definidos.

Quando o encontro acontece, a lógica se inverte. “No meio liberal, o celular aproxima, uma vez que é por ele que as pessoas se conhecem, conversam por dias, falam sobre desejos e limites e chegam ao encontro sabendo o que esperar. Justamente por isso, não faz sentido construir essa expectativa toda para depois competir com uma tela. Ninguém marca um encontro para ficar no celular. A tela prepara o encontro; o encontro pede presença”, afirma Gustavo Ferreira, head de marketing do ysos.

Para Regina G., usuária do aplicativo, estar inteira no momento é o que torna um encontro interessante. “Muitas vezes existe uma expectativa construída em conversas no app, então estar presente faz toda a diferença. Não temos regras sobre o celular, o bom senso resolve boa parte da questão. Mas, quando a pessoa está mais interessada na tela do que em quem está ao lado, a conexão se perde”, diz.

Quando o celular pesa, a conversa resolve

Nem os casais mais atentos escapam do hábito. Na rotina do Casal Libido, criadores de conteúdo conhecidos no meio liberal, o celular costuma ficar na mesa durante as refeições, “mais pelo costume”, segundo eles. E já houve vezes em que o aparelho atrapalhou o momento a dois. “Já aconteceu, mas não pôs a noite a perder. O outro chama a atenção e quem está errado reconhece, se retrata e deixa o celular de lado. Reconhecer o erro é o primeiro passo para não repeti-lo”, contam.

O casal admite que o celular ganha mais espaço em situações específicas: “quando tem algo pendente de trabalho ou quando realmente não temos algo melhor para fazer”. A diferença de quando conseguem deixá-lo de lado é clara. “As conversas fluem melhor, a reciprocidade nas trocas do dia a dia aumenta. Estar presente de verdade para o outro faz toda a diferença.”

A forma como os dois lidam com a situação, falando na hora em vez de acumular incômodos, reflete um princípio comum entre os liberais: o que incomoda é conversado, não engolido. “O celular nos une, por exemplo, quando navegamos pelo ysos escolhendo contatinhos e depois vamos olhar juntos para decidir com quais queremos conversar para marcar algo, aí a tela é aliada dos dois!”, declaram.

A intimidade não desaparece de uma hora para outra

Para a especialista em saúde sexual Sanny Rodrigues, o problema é a atenção dividida. “Quando uma pessoa está conversando e, ao mesmo tempo, respondendo mensagens ou olhando notificações, mesmo sem intenção, a mensagem transmitida pode ser que o que acontece na tela é mais importante do que o que acontece entre o casal”, explica.

Segundo ela, o distanciamento raramente nasce de uma grande briga. “Ele acontece aos poucos, quando o casal deixa de compartilhar pequenas experiências, conversar sobre o dia, trocar carinho ou simplesmente prestar atenção um no outro.” E isso tem impacto direto no desejo. “Desejo não depende apenas de atração física. Intimidade, disponibilidade emocional e curiosidade pelo outro também fazem parte. Quando o casal está fisicamente junto, mas conectado a telas o tempo todo, surge uma sensação de proximidade sem presença real”, diz.

A saída, para a especialista, não passa por proibir, mas por combinar. “Não é preciso transformar o celular em vilão. O importante é criar espaços livres de distração: uma refeição, os primeiros minutos depois do trabalho, a hora antes de dormir. Pequenos rituais, como perguntar de verdade como foi o dia ou dedicar alguns minutos de atenção exclusiva, ajudam muito. A intimidade raramente some de uma vez. Na maioria das vezes, ela vai sendo substituída aos poucos por pequenas distrações”, conclui.

Foto de Éder Luiz

Éder Luiz

Éder Luiz é jornalista com mais de 30 anos de trajetória na comunicação, com passagens por rádio, TV, impresso e mídia digital — incluindo RBS TV/Globo e TV Record. É fundador do Portal Éder Luiz Notícias, referência em jornalismo hiperlocal no Meio-Oeste catarinense desde 2010. Graduado em Jornalismo pela Universidade Estácio de Sá.


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