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Brasil e Mundo

Terapia nacional contra paralisia inicia testes em humanos

Aprovada pela Anvisa, a chamada polilaminina será aplicada em pacientes com lesão medular grave recém-adquirida

Éder Luiz

Éder Luiz

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Cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) iniciam neste mês, em São Paulo, os primeiros testes clínicos oficiais de uma substância promissora capaz de reverter paralisias. Aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a chamada polilaminina será aplicada em pacientes com lesão medular grave recém-adquirida, com o objetivo de ajudar a regenerar os nervos rompidos e devolver os movimentos ao corpo.

A etapa atual, que deve ser concluída até o fim do ano, marca o início de um processo rigoroso para comprovar a segurança do tratamento. Nesta primeira fase, o medicamento será injetado diretamente na medula de cinco voluntários no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). Os pacientes selecionados precisam ter sofrido a lesão grave há menos de 72 horas.

A substância gera grande expectativa na comunidade médica e representa uma esperança inédita para milhares de brasileiros, incluindo catarinenses que convivem com as limitações de lesões na coluna. O otimismo baseia-se em um estudo-piloto realizado entre 2016 e 2021 com oito pacientes graves. Cinco deles, após receberem a substância aliada à cirurgia padrão, recuperaram graus variados de sensibilidade e movimento. Um dos casos mais emblemáticos é o de um paciente que ficou tetraplégico em 2018 e, após o tratamento experimental e intensa fisioterapia, voltou a andar.

A descoberta da polilaminina ocorreu por acaso no laboratório da bióloga Tatiana Sampaio Coelho. A equipe percebeu que a substância forma uma espécie de “rede”. No corpo humano, quando a medula é fraturada, as caudas dos neurônios (axônios) se rompem, cortando a comunicação do cérebro com os membros. O que a nova terapia faz é oferecer uma base estrutural para que esses nervos voltem a crescer e se reconectem.

Apesar dos relatos de sucesso inicial, os pesquisadores e órgãos de saúde mantêm cautela. A ciência exige que a eficácia e a segurança do produto sejam comprovadas em testes maiores antes de ser oferecido à população. O processo completo de validação deve durar cerca de dois anos e meio, dividindo os pacientes em grupos para garantir que a melhora seja, de fato, efeito da medicação e não uma recuperação natural do organismo.

Se a eficácia for confirmada nas próximas etapas de pesquisa, a ciência brasileira entregará ao mundo o primeiro tratamento capaz de restabelecer a comunicação nervosa em lesões medulares completas, mudando o prognóstico de quem hoje não tem alternativas além da cirurgia de descompressão e da fisioterapia adaptativa.


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