Da saudade ao sonho realizado: as receitas do pai que viraram uma agroindústria em Joaçaba
Em Santa Helena, Joaçaba, Valdemir resgatou as receitas do pai e junto com o sócio, Mauro, criou uma agroindústria. Conheça a história!
Foi preciso sair do interior para descobrir o valor do que se deixava para trás. Valdemir Dal Prá, sócio de Mauro Fracasso na F & Dal Prá Alimentos, conta que a vida na propriedade tinha limites que o empurraram para a cidade. Mas foi lá, longe de casa, que a saudade falou mais alto.
“Na cidade, você vê quanto fazia falta ter aquele alimento produzido em casa — um salame, o que fosse”, relembra. “Foi daí que veio o resgate dessas receitas.” O ponto de partida foi a história do pai, Ângelo Dal Prá, hoje com 85 anos, que começou tudo na propriedade. As receitas antigas da família viraram, primeiro, um hobby de fim de semana — a paixão pela carne suína transformada em passatempo.
Do hobby nasceu a empresa. “A gente tem muita receita para tirar, testando e sempre fazendo de tudo, se dedicando para inovar”, resume Valdemir, que trata a agroindústria como um sonho alcançado.
Da mesa da família para a mesa do cliente

O carro-chefe da casa é a linguiça colonial, mas a lista é longa e não para de crescer. São linguicinhas toscanas em várias combinações — queijo e bacon, queijo e rúcula, queijo e tomate seco, e até uma versão recente com queijo e goiabada. Na linha dos defumados, a costelinha, o bacon, o kit feijoada, a costela suína, a barriga, a banha e os torresmos, todos com defumação artesanal feita com lenha frutífera.
Há ainda um laboratório de sabores em andamento: salame tipo italiano, salame tipo Cracóvia, o guanciale — em testes recentes, que é um produto de charcutaria italiana feito com a bochecha e a papada do porco — e a copa, que ganha versões diferentes a partir do mesmo corte. “O mesmo músculo, o mesmo pedaço de carne, com o mesmo tempero, mas com dois resultados totalmente diferentes”, explica, sobre a copa maturada e a defumada.
O diferencial, ele faz questão de frisar, está no que os produtos não têm. “É uma linha com menos gordura, sem adição de conservantes, a gente usa o mínimo possível. Zero corante”, garante. “Nosso propósito é entregar um produto que seja bom, suave, apetitoso, prazeroso de ser degustado.” O lema resume a filosofia da casa: “Da minha mesa para a tua mesa.”
Uma estrutura à altura da tradição

Por trás do sabor artesanal, há uma estrutura profissional. Foi na propriedade do seu Ângelo, o pai, que a família ergueu uma pequena agroindústria dentro de todos os padrões exigidos — construída com o acompanhamento do Serviço de Inspeção Municipal e dotada de tudo o que é necessário para operar com o selo. Hoje, ela é referência na região.
É ali que toda a produção acontece. A carne chega das mãos de produtores da própria comunidade, o que garante qualidade e rastreabilidade à matéria-prima — um cuidado que começa na origem e se estende por todo o processo, da recepção à defumação. É esse rigor que sustenta a promessa do produto caseiro sem abrir mão da segurança alimentar.
O reconhecimento também se traduz no contato direto com o cliente: a F & Dal Prá é presença certa e sucesso na feira livre municipal, onde comercializa seus produtos semanalmente, ao lado das encomendas pelo WhatsApp e das entregas em casa.
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“Hoje eu estou aqui graças ao Sebrae”
Tirar o sonho do papel passou por vencer o receio da burocracia. “A questão da legalização dá um pouco de medo, é um tanto burocrático. Mas quando se tem noção do que vai fazer e se segue um planejamento, as coisas vão fluindo”, avalia Valdemir.
Nesse caminho, a assessoria foi decisiva. “Eu já faço curso do Sebrae há algum tempo. Quando surgiu o pensamento de tirar o projeto do papel, eu já estava fazendo um curso para ver se era viável. Hoje eu estou aqui graças ao Sebrae”, afirma, lembrando também do apoio do Senar. “São cursos em que você vem aprimorando, testando, tentando evoluir.”
Agora, a expectativa se volta para o consórcio intermunicipal, que promete abrir novos mercados. “Eu aposto muito nisso, porque abre as portas para os demais municípios. Tenho como buscar clientes novos, mais clientes, o meu público”, projeta. E, pela natureza artesanal dos produtos, o próximo passo tem nome: o Selo Arte. “Entrar no Arte já é outro patamar. Nosso pensamento a longo prazo é expandir mais, tendo um produto de qualidade, artesanal.”
O caminho para quem quer começar
Quem garante que o sabor artesanal chega seguro à mesa do consumidor é o Serviço de Inspeção Municipal de Joaçaba, chefiado pela médica-veterinária Bruna Bender Prando. Ela explica que o SIM é responsável pela inspeção e fiscalização sanitária dos produtos de origem animal produzidos e comercializados no município. “Os produtos são acompanhados em todas as etapas: verificamos a procedência da matéria-prima, as condições de higiene das instalações, dos equipamentos e dos manipuladores, as embalagens e o armazenamento”, detalha. “Isso garante mais segurança e qualidade ao consumidor, que sabe que o produto foi inspecionado.”
Segundo a responsável técnica, o selo também abre caminho para o crescimento do produtor. “Hoje, um produtor registrado no SIM de Joaçaba pode comercializar apenas dentro do município. Com o consórcio intermunicipal, esses produtos poderão ser vendidos também nos demais municípios participantes, de forma totalmente regular. Isso amplia o mercado, aumenta as oportunidades de venda e pode gerar mais renda.”
No caso dos embutidos da F & Dal Prá, o próximo passo tem endereço certo: o Selo Arte. “É uma certificação do Ministério da Agricultura e Pecuária que permite comercializar produtos artesanais em todo o território nacional”, esclarece Bruna. “Para obtê-lo, a agroindústria precisa preservar o caráter artesanal da produção, valorizando as técnicas tradicionais, o saber-fazer local e as matérias-primas de qualidade. Para uma agroindústria como a F & Dal Prá, representa a oportunidade de alcançar novos mercados, agregar valor e fortalecer a identidade da produção regional.”
A orientação a quem quer começar é direta. “O primeiro passo é procurar o Serviço de Inspeção Municipal, que funciona junto ao Setor de Agricultura da Prefeitura de Joaçaba, na antiga Câmara de Vereadores”, indica. “Nossa equipe esclarece todas as dúvidas, explica as exigências legais e, quando necessário, realiza uma visita técnica à propriedade. Nosso objetivo é orientar e apoiar o produtor durante todo o processo de regularização.”
Para a coordenação do projeto, histórias como a da F & Dal Prá são exatamente o que o programa busca impulsionar. “O Sebrae acredita no potencial das agroindústrias familiares para gerar renda, valorizar a tradição e fortalecer o desenvolvimento regional”, afirma Lizandra Regina Medeiros, do Sebrae/SC, gestora regional do Programa de Fortalecimento da Agroindustrialização Regional. “Nosso papel é apoiar os produtores com orientação, capacitação e gestão, para que transformem boas ideias em negócios sustentáveis e competitivos, assim como a F & Dal Prá.”
O recado final é um convite: interessados no projeto podem procurar o Sebrae em Joaçaba.
Sabor, tradição e excelência
O que começou como saudade do interior virou marca — e um negócio que carrega, no rótulo e na prática, a assinatura “sabor, tradição e excelência em cada fatia”. Para Valdemir, o mais importante é seguir fiel à origem: melhorar e adaptar as receitas herdadas do pai, sem abrir mão do caseiro. “O que mais nos faz gostar e seguir é essa linha do diferente.”
Veja a galeria com imagens do produtos
Esta matéria integra uma série especial sobre os produtores do Meio-Oeste catarinense que estão conquistando o Serviço de Inspeção Municipal (SIM), com o apoio do Sebrae/SC. Produtores interessados em regularizar sua produção podem procurar a agência regional do Sebrae/SC em Joaçaba ou a prefeitura dos municípios da região.
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