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Para Fagner
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A história do ex-morador de Joaçaba que ganhou a Europa com seus bonecos

A história do ex-morador de Joaçaba que ganhou a Europa com seus bonecos

Éder Luiz

Éder Luiz

Para Fagner

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O paranaense Fagner Gastaldon tem uma história íntima com Joaçaba, onde sem querer iniciou uma carreira que o levaria para a Europa e o transformaria em um renomado e reconhecido artista.

Natural de Foz do Iguaçu, se mudou com cinco anos de idade para Chapecó. Veio para Joaçaba estudar psicologia na Unoesc. Foi aqui que começou a trabalhar com teatro, na CIA Mútua de Teatro e Animação, Antiga CIA Lauro Góes de Teatro. O início foi meio sem querer, um daqueles momentos em que a vida muda como se alterasse a direção do vento, que o levou para a Inglaterra, onde se transformou num dos maiores artistas do teatro de bonecos, ou simplesmente um bonequeiro.

Pela internet, Fagner concedeu uma entrevista ao Portal Éder Luiz. Atualmente ele mora no País de Gales, numa cidade chamada Abergavenny e viaja entre Londres e a cidade para levar as peças e as oficinas de teatro.

Na entrevista ele fala sobre o começo da carreira e as curiosidades de um brasileiro que buscou seu lugar apostando na sorte e na aventura.

Como começou sua história no mundo da arte?

Fagner – Por causa da psicologia fizemos uma panfletagem na rua em Joaçaba e tínhamos que nos vestir de palhaços e eu era um deles. Eu me senti bem e gostei muito de fazer aquilo, decidi então que iria trabalhar com festas infantis e me vestir de palhaço. Tive a ideia de realizar uma noite especial na pizzaria que eu trabalhava e batizei de “Uma noite com o palhaço Soneca”, quando  criei um nome para o meu personagem e naquele dia teve umas 20, 30 crianças que estavam lá. Meu palhaço fingia que não sabia das brincadeiras e as crianças iam me ensinando. Comecei a fazer e então festas infantis, foi quando conheci o Guilherme Peixoto e a Mônica Longo, da CIA Mútua e passeia a trabalhar com eles. Eles tinham ume peça chamada “A história de Wilian”, que era de bonecos e eu pude trabalhar nela. Trabalhando e viajando com eles e passamos a fazer um outro espetáculo, chamado “A Caixa”, e aprendi muito como fazer bonecos e desde então meu objetivo foi trabalhar com teatro de bonecos.

Quando decidiu que iria para a Europa?

Fagner – Larguei a universidade e passei a trabalhar com teatro, fui a vários festivais em Santa Catarina. Um dia resolvi que queria viajar e vir morar para cá. Meu objetivo era aprender novas culturas, a língua. Comprei uma passagem e vim direto para cá, sem conhecer nada e sem saber o idioma. Comecei como lavador de pratos, depois me tornei cozinheiro, por uns 3 anos, entre barzinhos e até restaurante 5 estrelas.

Não sabia o idioma, como fez para aprender?

Fagner – Cheguei aqui e me matriculei numa escola de inglês, pagava 20 Libras por semana. Tinha um monte de brasileiro, o professor tentava ensinar e o pessoal ficava conversando durante a aula e eu não consegui entender nada do que estavam ensinando. Resolvi então que não iria mais na escola. Com o dinheiro que eu gastava para ir para a escola eu saia e sentava nos pubs em Londres e ficava ouvindo a pessoas conversarem, geralmente uma pessoa mais velha que estivesse sentada sozinha, que gostavam de contar histórias. Eles falavam e eu ouvia sem entender nada, apenas sorria e fazia que estava compreendendo. Também assisti filmes em inglês com a legenda no áudio original e aprendi muitas frases assim. Passei a ler em inglês em uma cidade de livros usados, ficamos eu e minha namorada na época, Cass Gastaldon, hoje esposa, em um quarto que alugamos num castelo, só que o castelo era uma livraria de livros usados. Existe nesta cidade uma iniciativa chamada de “livraria honesta”, os livros ficam por todos os cantos, você pega o que quiser e coloca em uma caixinha o valor que achar justo por aquele livro. Foi assim que aprendi a ler em inglês.

Quando conheceu sua esposa não falava inglês?

Fagner – Conheci ela num bar onde ia sempre para conversar com uma amiga brasileira que trabalhava lá.  Essa minha amiga me apresentou pra Cass, fomos para a casa dela onde tinha outros amigos brasileiros. Depois, fiquei dois meses sem falar com a Cass até que voltei ao mesmo pub e a encontrei novamente. Ela veio falar comigo bem devagar, para eu entender, mas ai comecei a falar inglês e ela ficou impressionada que em dois meses aprendi a língua, já que no primeiro encontro eu não falei uma palavra.

Como é seu trabalho com os bonecos ai no Reuni Unidos.

Fagner – Eu me formei em Londres, na Universidade Real de Teatro, em teatro com ênfase em teatro de bonecos, um dos poucos cursos nesta área que existem aqui no Reino Unido.

Há dois anos abri uma companhia aqui no País de Gales e temos um espetáculo chamado a “Terra do Dragão”, que é baseada na mitologia do país e conta a história que foi baseada em um livro muito antigo. Já viajei todo o sul do País de Gales, estive em festivais com a peça, até mesmo em outros países. A peça foi muito bem avaliada pela crítica, ganhando 5 estrelas. Outro trabalho que tenho é uma peça voltada para a saúde, em parceria com o sistema de saúde daqui. Ela tem o objetivo de reduzir o número de crianças que vão para a emergência, mostramos que muitos problemas de saúde podem ser resolvidos sem recorrer aos hospitais.

Já ensinei para crianças carentes, para viajantes, para estudantes de cirurgia de um hospital em Londres, atinjo todos os públicos com as oficinas.

Hoje Sou o único bonequeiro aqui do Reino Unido que o trabalho do “teatro lambe-lambe”, aquele que é feito dentro de uma caixinha, que parece uma máquina fotográfica, uma técnica brasileira. Neste formato tenho duas peças que apresento em Londres, nos festivais, entre ele o Teatro Mundial de teatro da França e nos lugares onde vou aqui no País de Gales.

O lema da minha companhia é “teatro para todos”. Apresentamos a mesma qualidade nas peças em teatros e nas comunidades. Entendo que a arte dever ser de qualidade e acessível para toda a comunidade.

Você mesmo confecciona os bonecos que usa nas peças?

Fagner – Sim. Aprendi aos poucos, ai mesmo em Joaçaba, quando conheci Paulo Nazareno, um bonequeiro que faz um trabalho muito bom. Com ele vi um boneco sendo construído e desde então fui tentando, errando e fazendo de novo até conseguir fazer meus bonecos. Confecciono bonecos entalhados em madeira, mas geralmente faço eles com materiais recicláveis. Acho bastante coisa que o pessoal joga no lixo, madeira, compensado, isopor.

A cada boneco é uma aventura nova, sempre haverá espaço para melhorar. Acredito que jamais será um boneco perfeito, sempre é uma descoberta.

Pretende fazer a sua arte ser tão conhecida aqui no Brasil quanto é no Reino Unido?

Fagner – Uma vontade que tenho é apresentar um trabalho meu no Brasil, nunca aconteceu de levar algo que construí aqui para meu pais. Levar também uma oficina de manipulação e construção de teatros de bonecos, para dividir colaborar com outros profissionais da área.

E quanto a voltar a viver aqui o Brasil, existe essa vontade?

Fagner – Não vou dizer que sim e nem que não. Hoje trabalho com minha CIA aqui, o que quero é levar o meu trabalho para o Brasil, assim como para outros países, mas a base é aqui no País de Gales. Tem uma frase que diz “ a tua casa é onde você coloca o seu chapéu”. Para um artista passar o chapéu depois de uma apresentação significa que ali é a casa dela. Por isso acredito que não imposta onde eu viva, mas sim poder levar meu trabalho para vários lugares.

 


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