Menu
Várias bandas tem seus vinhos.
Geral

Coluna Brinda Brasil – O vinho e o rock’n’roll

Por Rodrigo Leitão A paixão dos roqueiros pela bebida de Baco é mais antiga do que se imagina.

Éder Luiz

Éder Luiz

Várias bandas tem seus vinhos.

Compartilhe:

Por Rodrigo Leitão

A paixão dos roqueiros pela bebida de Baco é mais antiga do que se imagina. Desde os anos 60, muitos astros do rock apreciam um bom vinho

Talvez nenhuma outra banda de rock tenha inventando tanto produto para vender quanto o Kiss. Os roqueiros caras-pintadas de Nova Iorque já lançaram de camisinha a caixão. Eles são os reis do merchandising no mundo do rock'n'roll. Mas há dois anos, Gene Simons e Cia surpreenderam ao lançar uma marca própria de vinhos e cervejas. Segundo o vocalista Paul Stanley, o vinho do Kiss não é mero jogo de marketing. Eles pesquisaram e pediram ao enólogo um vinho que tivesse a cara da banda. Qual a uva? Cabernet sauvignon. São três rótulos com safra 2002 e selo de autenticidade. Não há informações sobre a venda no Brasil.

De uns tempos para cá, os roqueiros descobriram o vinho comercialmente, mas a bebida já faz parte das listas de camarins há décadas. Principalmente vinhos brancos, champanhes e espumantes. Sir Paul McCartney, por exemplo, não esconde sua predileção pelos franceses Chablis. Ele já foi visto algumas vezes degustando o Dampt Chablis, produzido há 150 anos pela família de Daniel Dampt, em Milly. Da última vez que foi visto saboreando esta dádiva, safra 2007, Paul estava num restaurante de Los Angeles.

Bono Vox, líder do U2, já foi visto em vários restaurantes do mundo pedindo sauvignon blancs sul-Africanos. O preferido dele é o La Motte, produzido na propriedade da Família Littore, na região de Franschhoek, Perto da Cidade do Cabo. Em sua última passagem  por lá, Bono pediu o La Motte Pierneef Shiraz / Viognier 2005. Aqui precisamos fazer um àparte. Esse foi vinho inspirado em um Importante artista plástico sul-africano chamado Jacob Hendrik Pierneef (1886-1957). Seu trabalho primitivista retratava as belas paisagens da região com delicadeza, maestria, singeleza e força. A música do U2 é assim também. Eu costumo dizer que shiraz é a uva do rock, Mas que bandas como Beatles e U2 estão mais para o norte do Rhone, na França (onde os vinhos de shiraz são mais aveludados), do que para a uva produzida na região australiana de Barosa (cujos os vinhos são mais irados!). E esse vinho tinto preferido pelo Bono Vox é exatamente assim. A viognier entra para amansar um adolescente shiraz, dando suavidade a essa mistura. O resultado é um paladar elegante que lembra pêssegos e cerejas. Os taninos são vivos e refrescantes. Um inusitado vinho, imprevisível, uma mistura rara de branco e tinto, temperada e extravagante como o rock tem de ser. E como o rock'n'roll, este é um vinho acessível. Na África do Sul, custa US$ 25.

Mas o caso de rock com vinho do momento é protagonizado pelo ex-Police Sting. O Inglês Gordon Matthew Sumner é um revolucionário silencioso. Trocou a Matemática pelo contrabaixo, inventou uma batida atravessada para sua música e deslanchou com uma nova onda de fazer pós-punk numa carreira pródiga e meteórica. Abandonou o Police e caiu na onda do jazz. Agora, está no vinho. Juntamente com o sua mulher Truddy (com quem tive a oportunidade de conversar enquanto Sting se apresentava no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, em 1987, no início da minha carreira jornalística), o roqueiro Inglês se debruçou sobre a produção de super-Toscanos, ao sul de Florença.

Se antes ele tinha “Uma Mensagem Dentro de Uma Garrafa”, agora ele tem vinho de qualidade. “Message in a Bottle” foi um megahit musical de Sting. Hoje o sucesso está numa garrafa de Sister Moon (Irmã Lua), um tinto elaborado a partir de Sangiovese (50%), Cabernet Sauvignon (25%) e Merlot (25%). Ainda não provei, mas, segundo a revista Wine Spectator, que deu 93 pontos a ele, trata se de um vinho aromático, com cerejas, morangos, framboesas e groselha; profundo, Intenso, com especiarias e estruturado. Ou seja, Sting faz um vinho tão elegante quanto sua música. "Um vinho polido, com mirtilo, carvalho tostado, levemente esfumaçado e apimentado. Muito sedoso, com um longo final", publicou a WS.

Essa história começou há mais de dez anos, quando Sting e Truddy investiram na restauração de uma vila do século 16, nas colinas da Toscana, com jardins, vinhas e olivais. Sting e sua família são vegans radicais, comem apenas o que a terra dá. O outro vinho é biodinâmico e se cama Casino delle Vie. Sting de não sabia como fazê-lo, então pediu ajuda ao renomado viticultor biodinâmico Alan York. Casino delle Vie é o nome da casa principal desta antiga fazenda italiana. O vinho e 100% sangiovese, um Chianti autêntico. Mas, antes que alguém pense em aposentadoria, Sting avisa: "Eu não desisti da música para assumir uma vinificação. Compramos esta propriedade amamos". O cantor comprou uma terra na Itália para fazer música e fugir dos elevados impostos britânicos. Montou um estúdio por lá, mas descobriu que faltava algo para completar sua inspiração… Era o vinho.

Coleção direto do Rol da Fama

Depois de uma premiação na galeria do Hall of Fame, em Los Angeles, quando roqueiros presentes deliciavam belos exemplares de vinhos californianos, o empresário John Gruber, presidente da Warnner Media, editora da revista Rolling Stone, vislumbrou uma forma inteligente de preservar os leitores e ainda os abarcar milhares de fãs de rock, hoje órfãos da Indústria fonográfica que não consegue combater a pirataria e substituir CDs por uma mídia mais eficaz. Gruber teve uma visão: imaginou as capas dos álbuns nos rótulos das garrafas de vinho. Segundo ele, o rótulo combinado com o sabor do vinho faz dessa bebida um produto único, típico desse mercado. Surgia ali o Wine Club da Rolling Stone.

Na trilha de Gruber, veio o enólogo Mark Beamer, que sequer esperou o projeto da maior revista sobre rock do mundo emplacar. Beamer, que já produzia vinhos, lançou Rolling Stones, Pink Floyd e uma coletânea de Woodstock. O pacote chama-se "Rainbow Pack" e traz garrafas com o título de cada disco, ao preço de US$ 51. Os álbuns tintos São: Forty Licks, dos Rolling Stones (feito com merlot), The Dark Side of the Moon, um cabernet sauvignon com a marca Pink Floyd e um Chardonnay, em homenagem ao festival de  Woodstock. Para fazer o vinho do Pink Floyd, Beamer harmonizou o som ímpar do clássico Dark Side com a excelência da cabernet (uma uva jazzy). Provocou uma combinação de atemporalidade com atitude, o que, segundo ele, representa bem o terroir do Condado de Mendocino, de onde veio a uva. O chardonnay de Woodstock não passou por madeira, preservando a fruta em homenagem à quebra de paradigmas que o festival promoveu no final anos 60.

Um autêntico shiraz australiano

Uma das bandas Mais longevas do rock é o AC/DC, formada em  1973, em Sydney, na Austrália, pelos irmãos Angus e Malcolm Young. Depois de rodarem pelos quatro cantos da Terra, por várias vezes, inclusive passando pelo Brasil, e confortavelmente sentados sobre uma fortuna adquirida pela venda de mais de 200 milhões de discos ao longo da carreira, os Young resolveram lançar um outro produto de seus melhores álbuns: estão à venda os Highway to hell Cabernet Sauvignon, Hells Bells Sauvignon Blanc, Back in Black Shiraz, You Shook me All Night Long Moscato e Thunderstruck Chardonnay.

Os Irmãos Young não são produtores de vinhos e, pelo que se sabe, em seus camarins, a bebida predileta era Jack Daniels. Mas, com o mercado do rock combalido pela pirataria, falou mais alto o negócio. Aí eles pediram à vinícola australiana Warburn Estate que resolvesse o assunto.

Aqui vale dizer que o shiraz feito pelo AC/DC é bem diferente do apreciado pelo U2. A uva típica da Austrália e que vem no rótulo mais famoso dos Irmãos Young, Back in Black Shiraz, remete ao principal viés do rock’n’roll, a juventude. É um vinho bravio, com elevada acidez e taninos presentes, bom para acompanhar uma bela picanha.

Ainda na linha do rock mais pesado, os norte-americanos do Motörhead também encararam um tinto shiraz. Não muito longe deles, o Grateful Dead pediu ao enólogo Marcos Beaman que criasse um assemblage tipicamente californiano. A alquimia sugerida por Beaman parece refletir bem o som da banda. O vinho chama-se Red Grateful Dead e mistura as uvas shiraz, petite shiraz, zinfandel e grenache. O resultado são aromas de cerejas maduras e de bacon, com nuances de baunilha e caramelo.

Isto é rock'n'roll!!!

Rodrigo Leitão, especialista em enogastronomia.

O colunista dedica-se há três décadas ao jornalismo e já passou por redações como O Globo, Jornal de Brasília, TV Brasília, TV Band e Rádio Band News FM, em Brasília onde atua no segmento de comunicação e eventos. Rodrigo Leitão organiza anualmente o Brinda Brasil – Salão do Espumante de Brasília, o maior encontro nacional exclusivamente com produtores de espumantes. Ele já atuou nas áreas de Economia, Política, Internacional, Cultura e Saúde, onde conquistou vários prêmios.

Conheça o blog Gourmet Brasília. Clique Aqui!


Compartilhe: