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Crack – Reflexão sobre uma Realidade Invisível

O Colunista Omar Dimbarre reflete com sensibilidade e de forma humanizada sobre o problema do crack que atinge a nossa comunidade.

Omar Dimbarre

Omar Dimbarre

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O pulsar vibrante que permeia a cidade desperta antes dos nascentes raios de sol escalarem os morros que se erguem à beira do Rio do Peixe e, do alto, banharem-na de luz. O barulho dos primeiros carros cruzando suas artérias de concreto sinaliza que um novo dia está iniciando. A vida, então, desperta.

A cama arrumada rapidamente. Crianças preparam-se para mais um dia de estudos; pais e mães, para mais um dia de trabalho. Café em família. Sorrisos, abraços, palavras de afeto. Nas ruas, alguns passos apressados; o sono demorou um pouco mais para ser interrompido. Outros passos, mais lentos, contemplativos: pausas para conversas rápidas. — Bom dia! Risos e acenos!

No corre-corre matutino, a manhã voa. E quando o sol, navegando pelo céu, fica a pino, desperta o apetite. Relógios digitais sinalizam meio-dia. A fome não espera. É hora do almoço. Restaurantes lotados. A mesa em casa, preparada. Famílias comungam deste momento sagrado — entre garfos e facas, causos, risos e brincadeiras. A tarde inicia  — Um abraço de despedida.

O chão negro que reveste as ruas vibra, conectando destinos. Nas lojas e supermercados, o piso estremesse — corpos em movimento  abastecendo geladeiras e guarda-roupas.

As luzes dos postes, guardiões das ruas, acendem-se: a noite eclode. Há descanso em casa — TVs ligadas, música tocando, reunião em volta da mesa, conversas e afagos. Os colégios agitam-se — alunos em busca de um diploma para sacramentar o futuro. Os bares fervilham — entre copos, bate-papos, risadas e gargalhadas, a noite é uma festa. Vidas que seguem em seus ritmos frenéticos.

Muito além deste universo fervilhante — que constrói histórias, fomenta sonhos, tece amizades e edifica laços familiares —, há um outro universo, uma outra realidade, invisível, acontecendo paralelamente: um mundo obscuro e melancólico, habitado por desvalidos que, entregues ao vício destrutivo do crack, veem seus sonhos serem assolados, ao mesmo tempo em que seus elos de sangue são devastados; restando-lhes, muitas vezes, a rua como sua moradia. 

Sem teto para abrigá-los, embalam seus sonos escondendo-se furtivamente dos olhares — em escombros, porões úmidos e insalubres, em becos, sob as vigas das pontes que ligam nossas cidades ou em algum banco de praça. Qualquer local serve para que se enrolem em um cobertor — manto que aquece e, ao mesmo tempo, oculta uma identidade cada vez mais apagada pelo desamparo que o exílio no relento lhes concede.

E, a cada novo despertar, com suas almas, tal qual uma roupa corroída por traças, enterram um pouco mais de suas dignidades.

Excluídos da engrenagem que movimenta e impulsiona a comunidade, desempregados vagueiam famintos em busca de um gesto de solidariedade — uma mão que lhes estenda um café para iniciar o dia. Chega a hora do almoço: não há mesa posta, não há o ritual da família reunida. Há, novamente, a peregrinação por um coração solidário que lhes doe, agora, um prato de comida.

Quando a compaixão não chega, desassistidos e sem dinheiro no bolso, reviram lixeiras atrás de restos de comida — sobras que ninguém mais quer. O estômago grita e a alma chora.

Há um universo tão próximo e, ao mesmo tempo, tão distante acontecendo à nossa volta. Histórias que cruzam as mesmas ruas que as nossas. Ao nosso lado, convivem vidas que se despedaçam, atropeladas pela desesperança e pela dependência de uma droga devastadora, que mutila o espírito, atrofia o corpo e aniquila a existência de quem se entrega a ela. Não há espaço em nosso limitado campo de visão para enxergá-las — ocupado demais em vislumbrar as nossas próprias pegadas; embasbacado com nosso mundo particular. Afinal, neste paraíso harmonioso e idealizado, não há lugar para a deformidade.

Crianças com onze, doze, treze anos largam suas bonecas, suas bolas, suas brincadeiras e seus sorrisos angelicais — sua infância roubada, sua inocência ultrajada. O crack não escolhe idade. Pais e mães, jovens, adultos, anciões — o vício consome e afasta familiares. Apaga histórias e desumaniza. Dizem que a esperança é a última que morre; o crack, tal qual um assassino impiedoso, crava brutalmente um punhal em seu peito.

Se de um lado, o dependente definha, do outro lado, a família se dilacera em tristeza  — Mães choram por seus filhos. Filhos lamentam por seus pais desgarrados. Os braços da dependência se abrem, envolvendo entes queridos e arrastando todos para a mesma estrada sombria.

E um novo dia vai nascer… simbolizando um novo recomeço. Sorrisos, abraços, palavras de afeto. — Bom dia! Risos e acenos! Copos, bate-papos, risadas e gargalhadas: a noite em festa. Enquanto isso, a desesperança vai continuar nascendo junto com o novo amanhecer para quem, oculto pelas sombras da cidade, permanecerá invisível — até que o último ato desta tragédia surja em cena, banhado em sangue e em lágrimas. E então, antes que as luzes do palco se apaguem, estes personagens desvalidos finalmente serão reconhecidos pela plateia.

Omar Dimbarre é produtor cultural, colecionador de cartazes originais de cinema, minerais e fragmentos de meteoritos. É apaixonado por artes — especialmente música e cinema —, fascinado pela natureza e por histórias populares, desenvolvendo projetos que visam recuperá-las.


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