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(Imagem site: cuidadospelavida.com.b)
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“Enquanto não bater na sua porta, ninguém lembra”: a dura realidade do crack em Herval d’Oeste

Em entrevista ao colunista Omar Dimbarre, a coordenadora do CAPS expõe como a droga atinge de crianças a idosos.

Omar Dimbarre

Omar Dimbarre

(Imagem site: cuidadospelavida.com.b)

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O avanço do crack tornou-se um problema de saúde pública crônico que desafia autoridades, destrói famílias e expõe a ferida do preconceito social. Em Herval d’Oeste, essa realidade é acompanhada de perto por quem está na linha de frente do acolhimento. Para entender a real dimensão dessa situação no município, o colunista Omar Dimbarre conversou com Paula Marion Fagundes de Lima, coordenadora do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).

Leia também: Crack – Reflexão sobre uma Realidade Invisível

Leia a a entrevista abaixo:

Omar — Qual é a situação em Herval d’Oeste  com relação ao crack no momento?

Paula — É uma situação bastante grave.  Temos usuários de todas as idades: desde adolescentes até idosos. Desde crianças com 11, 12, 13 anos até pessoas com 60, 65 anos. Então, não escolhe idade. E é uma doença, sim. Se não fosse, o CAPS não estaria aqui para tratar. E hoje isso, para nós, é extremamente grave, porque é algo que está inserido, incrustado aqui no nosso município. Não escolhe classe social, porque é uma droga de fácil acesso,  principalmente, porque é barata. É diferente da cocaína, que é um pouco mais cara. É uma droga bastante barata.

E as pessoas são bastante marginalizadas com relação a isso, porque a sociedade acaba dizendo que estão nessa vida porque querem. E não é uma verdade, né? É um vício bastante complicado de se tratar. São questões bastante complicadas no contexto social e familiar, no contexto de educação e, como falamos, é uma questão de saúde, sim.

Às vezes, uma pessoa tem toda uma situação por trás, e nós desconhecemos o que leva aquela pessoa a estar usando a substância. É muito fácil apontar o dedo. Então, vem aqui  no CAPS e, quando chega, temos que fazer todo um trabalho. Às vezes vem sozinha, sem o amparo da família, e quando chega está em um estágio extremamente precário. Às vezes já vem com outras drogas associadas também. Não  só o crack, e aí o tratamento é bastante difícil. Hoje, a internação hospitalar não é a primeira opção de tratamento. Fazemos um trabalho de dia a dia, semana por semana.  Então, se torna muito difícil trabalharmos com essas pessoas, se não contarmos com o apoio da família e da própria sociedade, que por trás criminaliza muito o dependente químico.

Podemos dizer hoje que mais de 50% dos pacientes aqui do CAPS são de dependência química. Tem transtorno mental, e a dependência química é algo que nos chama muito a atenção.

Omar — Qual a porcentagem de usuários de crack em relação ao total de dependentes químicos?

Paula — Nós temos bastante álcool, mas o crack é também algo gritante aqui em Herval d’Oeste. Gritante porque é uma droga de preço muito baixo. Em vista de outras drogas, o crack é algo bastante fácil. E, diferente da cocaína, é de fácil troca. Se você tem um tênis, pode trocar pela cocaína. Se você tem um pacote de biscoito, troca pela pedra. Então, é por isso que é uma droga de fácil acesso, porque há troca, diferente da cocaína. Geralmente, a gente conhece o usuário do crack porque ele furta.

O crack é a droga que leva para a marginalidade. Leva para o desleixo. Conhecemos o usuário de crack porque ele fica desleixado. Não cuida mais da aparência. Não cuida mais de si. Anda com roupas esfarrapadas. Dificilmente você vê um usuário de crack limpo, asseado. Ele se descuida totalmente.  Os usuários de crack conhecemos por essas características: a aparência. Ele não cuida mais do seu zelo pessoal, do seu asseio pessoal.

Nós temos aqui várias situações em que os familiares não querem mais dependentes dentro de casa. Eles chegam a furtar carne do freezer para trocar. Furtam comida: arroz, feijão… O tênis do próprio filho… Perdem a dignidade. É uma doença que leva às últimas consequências. E Herval d’Oeste  é uma cidade que, infelizmente, está cheia.

Omar — Pesquisa feita pelo Lenad(Levantamento Nacional de Álcool e Drogas) realizada em 2023 e divulgada em 2025,  apontou que na região Sul 1,69% das pessoas já haviam utilizado crack ao menos uma vez na vida, mas apenas 0,17% utilizaram no último ano. Isso equivaleria em Herval d’Oeste, a cerca de 378 pessoas que já usaram crack alguma vez, e apenas 38 no último ano, ou seja, somente 10% continuam utilizando. No entanto, diante da realidade que vocês acompanham no CAPS, esses números parecem condizer com a situação local ou vocês percebem que o problema é maior do que a pesquisa mostra?

Paula — É complicado. Dos nossos pacientes que estão em tratamento, digamos que, de cada dez, dois ou três estão em total abstinência.

Omar  —  E estes dois ou três vão conseguir ficar eternamente abstêmios?

Paula  — É uma incógnita. A gente faz o acompanhamento. Temos um grupo aqui no CAPS: o AD avançado e o AD inicial. Há pacientes que acreditamos estar em abstinência há mais de um ano, com relação ao crack. Então, tem que continuar vindo. É isso que esperamos. E temos que acreditar que isso realmente esteja acontecendo.

Omar  — Como funciona?

Paula  —  Começa com manutenção e tratamento. Dependendo de cada caso, vem uma vez por semana, ou duas vezes por semana. Atendimento individualizado com os profissionais técnicos. Depois começa a vir em grupo semanal: grupo inicial, onde o paciente expressa recaída, algum nível de ansiedade. Este grupo semanal é um grupo de apoio com outros usuários, com acompanhamento, onde ele vai superando suas angústias, suas necessidades, aprendendo a lidar com situações de sofrimento.

Ele vai recebendo suporte e passa para o AD avançado, que é um grupo de apoio onde os pacientes  estão há mais tempo em abstinência. Esse grupo também é semanal, mas com outras configurações. É um grupo de apoio, mas com outro modo de tratar, outra visão de tratamento, outro profissional que conduz, em outra linha de tratamento.

O AD inicial é conduzido de um modo e o AD avançado de outro. No AD avançado, as pessoas estão há mais tempo em abstinência; no AD inicial, estão começando a ficar em abstinência. Temos essas duas características no CAPS. São grupos com a mesma finalidade: manter a abstinência, seja para quem está começando o tratamento, seja para quem está em uma fase mais avançada.

Omar  — Por quanto tempo?

Paula  — Enquanto as pessoas precisarem, enquanto se sentirem confortáveis, enquanto precisarem de acompanhamento, nós estamos aqui. É estilo AA – enquanto a pessoa precisar. Porque é uma doença crônica. O alcoolismo, a dependência química, é algo que não tem cura. A pessoa tem que conviver com ela, tem que saber lidar com a doença. Estamos aqui para dar suporte. Às vezes precisa tomar medicação pro resto da vida, precisa de grupo de apoio, e o CAPS cumpre essa função. Fazer com que as pessoas entendam suas necessidades, entender o que leva a querer usar a substância.  Isso trabalhamos dentro dos grupos terapêuticos, seja no AD inicial, seja no AD avançado.

Omar  — Quantos dependentes estão participando atualmente destes grupos?

Paula —
O número é pequeno perto dos nossos usuários. Às vezes o grupo inicial atende entre dez e quinze pacientes. Já o grupo avançado, em média, cinco, seis ou oito pacientes. Isso é no geral, considerando usuários de drogas — não apenas de crack.

Omar  —  E com relação aos usuários crônicos ? São enviados para abrigos?

Paula  — Não trabalhamos com abrigos. Trabalhamos com comunidades terapêuticas. Encaminhamos para as comunidades terapêuticas de Erval Velho, Campos Novos, Videira, Lages e Curitibanos. O abrigo não funciona como comunidade terapêutica. Encaminhamos para comunidades terapêuticas.

Omar  —  E o CREAS,  faz algum trabalho de recuperação?

Paula — Só quando eles estão em situação de rua. Quando são dependentes químicos e em situação de rua, precisamos envolver o CREAS

Omar — Paula,  alguma mensagem final ?

Paula — O problema todo é que sem o apoio da família, a gente não consegue. Sem o apoio da família, apoio de alguém que ajude para que o tratamento aconteça. Porque dificilmente uma pessoa sozinha, na dependência da substância química, consegue efetividade no tratamento. Eles precisam de alguém que ajude na medicação, que dê suporte na alimentação, que lembre que a medicação vai causar efeitos colaterais, que vai passar por momentos difíceis de ansiedade, que a abstinência faz parte do tratamento. E se não tiver apoio familiar…

Então, fizemos esse trabalho também. No CAPS, tratamos a família.

Omar — E com relação à sociedade, Paula?

Paula — A gente sempre diz assim: o CAPS é lembrado muitas vezes quando o paciente está em crise. Quando está incomodando no comércio. Quando dá problema no convívio familiar…Tirando isso, eles são marginalizados.

Omar  —  Invisibilidade… 

Paula — Enquanto a situação não bater na sua casa, ninguém lembra. É que nem o transtorno mental. Enquanto não bater na sua porta, ninguém lembra que o transtorno mental existe.

Para entrar em contato com o CAPS de Herval d’Oeste, enviei mensagem para o WhatsApp (49) 3554-3039.


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