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O Segredo da Beira Rio: Pesquisa revela a sombria história por trás do Túmulo do Oscar em Herval d’Oeste

Mistério desvendado: Omar Dimbarre resgata a memória esquecida do "Mártir do Contestado" em Herval d’Oeste.

Omar Dimbarre

Omar Dimbarre

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Em 26 de setembro de 1914, a cidade de Curitibanos foi invadida e incendiada pelos sertanejos e caboclos da Guerra do Contestado. O ataque ocorreu em resposta ao massacre de Taquaruçu, perpetrado por cerca de 700 soldados do exército federal: 200 pessoas — entre elas mulheres, crianças e idosos — foram assassinadas em um dos episódios mais sangrentos do conflito. Como consequência, além de Curitibanos, outras cidades catarinenses e diversas estações ferroviárias da Linha São Paulo–Rio Grande do Sul também foram alvo de invasões.

O  governo federal, para evitar que novas estações da linha fossem tomadas, mandou guarnecer todas elas com um destacamento do exército. O comando na Estação do Herval coube ao capitão Salvador de Aguiar Cataldi, que já havia participado da Guerra de Canudos, na Bahia, e à época, atuante no Acre.

Capitão Salvador de Aguiar Cataldi

Cataldi, natural da Bahia, era forte, entroncado e de estatura mediana. Tinha cabelos ruivos, olhos pequenos e vivos. Pertencia ao 8º Regimento de Infantaria, que tinha sua sede em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul.  Aparentava uns 50 anos.

Obsessivo em prender e condenar os envolvidos no conflito, isolava-se no segundo pavimento da estação ferroviária; e, do alto, com seu binóculo em punho, passava o dia vigiando o que acontecia no lugar. Cataldi transformara em quartel o acampamento que se estendia pelos arredores do Herval.

Quando saía à rua, caminhava como se estivesse pronto para um confronto; paranoico, andava com a mão no bolso empunhando sua Browning, uma pistola semiautomática. Sua postura era rígida, com os olhos se movendo constantemente, vigiando cada canto do local, sempre preparado para um embate — e pronto para matar antes de ser alvejado.

À noite, sinistramente, acompanhado por quatro fiéis soldados, vagueava por todo o acampamento — transformado em sua praça de guerra particular. Espreitava pelas margens do Rio do Peixe, perdendo-se com seu olhar pelas águas, como se estivesse à espera de que algo repentinamente emergisse das profundezas. A tropa amedrontadora avançava com sua vigília noite adentro, e só se recolhia após o toque da alvorada.

Cataldi embriagava-se ciclicamente, bebendo conhaque em largos tragos — transformara seu gabinete em um armazém de garrafas. Era visto constantemente em estado alterado, e sob o efeito do álcool tornava-se mais violento do que naturalmente já era.

No acampamento, tornara-se frequente a chegada de prisioneiros: sertanejos e caboclos que lutavam por suas terras e foram criminalizados por se erguerem contra os desmandos vigentes. Eram oriundos de Rio das Antas, Rio Bonito (Tangará) ou Rio das Pedras (Videira). Corriam comentários entre os moradores locais de que, entre os detentos, apareciam também pessoas que não tinham nenhuma ligação com o conflito.

Transitavam durante um ou dois dias pela base militar e depois sumiam misteriosamente, tragados  pelo esquecimento. E quando alguém se encorajava a perguntar sobre o destino dessas pessoas, Cataldi respondia com soberba: — Eram bandidos! Eram fanáticos! Mandei-os para Porto União da Vitória ou para o Rio Grande!

E nada mais era comentado. O medo foi chegando de mansinho, aportou na vila e estabeleceu morada. Como companheiro, trouxe o silêncio. Os prisioneiros continuavam a chegar e a desaparecer sem deixar vestígios.

Um povo amedrontado é um povo acuado. Cataldi começou a perseguir moradores. Na calada da noite, invadia residências, espalhando o terror. Apavorados, fugiam para a estação mais próxima e telegrafavam para o Governo do Estado solicitando garantias.

À frente do governo catarinense estava o Sr. Felipe Schmidt, que por sua vez telegrafou ao general Setembrino de Carvalho relatando os acontecimentos. O coronel Sócrates foi incumbido de colher informações — resultando em omissão dos crimes — afirmando que Cataldi procedia bem. E, com isso, o terrorismo perpetrado na Estação do Herval prosseguiu: novos prisioneiros surgiam e desapareciam sem deixar vestígios. Os moradores locais continuaram sendo intimidados, detidos e encarcerados; e suas casas invadidas durante a madrugada.

Oscar de Menezes Carvalho e Carlos Schmidt

Oscar de Menezes Carvalho era natural de Porto União da Vitória e trabalhava como barbeiro por profissão e fotógrafo em Rio das Antas. (Em 1917, Porto União da Vitória foi dividida em duas: Porto União e União da Vitória).

Carlos Schmidt, ferreiro e descendente de alemães, nascera no Rio Grande do Sul e quinze dias antes havia se mudado para Rio das Pedras, atual cidade de Videira. Seu pai morava em Araucária, no Paraná.

Em 7 de junho de 1915, o capitão Cataldi enviou um telegrama ao tenente Francisco Diniz, comandante do destacamento de Rio das Pedras e subordinado ao comando de Herval. Solicitava que, no dia seguinte, fossem remetidos presos os indivíduos Oscar Carvalho e Carlos Schmidt. Não foi apresentada nenhuma justificativa para as detenções.

 No dia seguinte, Cataldi, receando que Diniz não acatasse suas ordens, embarcou uma escolta de soldados escolhidos a dedo no comboio que seguia para Porto União. A missão era trazer, no mesmo dia, os dois prisioneiros.”

Silêncio na Estação do Herval

A noite já havia derramado sua escuridão sobre a terra — chegara abraçada por uma melancolia lúgubre. Um vento cortante roçava o vale, intensificando ainda mais a sensação de frio.

O Toque de Revista (Recolher) — momento em que todos os soldados do destacamento se perfilavam para a contagem do efetivo —, era realizado sempre às 21 horas, foi adiantado para bem mais cedo naquela noite.

O Toque de Silêncio,  que era realizado algum tempo após a revista, entre 21 horas e 22 horas, foi dado logo em seguida. A partir de então, todos os lampiões do acampamento foram apagados e as conversas cessaram. Como os moradores locais viviam amedrontados pelo estado de violência que imperava no lugar, ao ouvirem o som da corneta ecoar mais cedo, recolheram-se; sabiam que, a partir daquele momento, a rua estava proibida. 

 Um silêncio profundo pairava no ar, quebrado apenas pelo barulho do movimento das águas do Rio do Peixe.

Chegada de Oscar e Carlos na Estação

Às 19 horas, o trem chegou à estação — trazendo consigo Oscar Carvalho e Carlos Schmidt, escoltados pelos capangas de Cataldi, que os recebeu cordialmente. Acompanhou-os até o pavimento superior da estação, conversando calmamente, como se fossem amigos de longa data.

Às 21 horas, ofereceu-lhes uma farta ceia acompanhada de vinho e sobremesas. Oscar e Carlos, sem compreenderem o motivo de tamanha receptividade, entendiam menos ainda a causa e o objetivo de seus aprisionamentos. Comeram calmamente, beberam alguns bons goles de vinho e, por fim, saborearam as sobremesas. Cataldi e o ambiente, até então, pareciam acolhedores. Ao terminarem suas refeições, com um leve sorriso estampado no rosto, agradeceram ao anfitrião.

Então, Cataldi ergueu-se de sua cadeira, acomodada ao lado da mesa, e mudou bruscamente a fisionomia, até então amistosa. Esfregando as mãos, em função do intenso frio que assolava aquela noite, disse-lhes de forma ríspida: — Agora vocês estão presos. Sargento Francellino, leve esses homens para a barraca da frente.

Neste momento, um negro alto, forte, robusto, de ombros largos e olhar sinistro, avançou sobre os prisioneiros. Atônitos, com as vozes embargadas, Oscar e Carlos levantaram-se e indagaram ao capitão qual o motivo daquela resolução. A resposta não veio, e o desespero abateu-se sobre eles.

Francellino agarrou-os pelos braços e empurrou-os violentamente contra a porta. Cataldi olhou para eles e raspou o dedo indicador no pescoço, ordenando ao seu truculento subordinado.

Foram entregues ao cabo Claudino e a outros soldados, que brutalmente os conduziram para uma das barracas que ficavam no acampamento.

O Assassinato de Oscar Carvalho

Oscar, temendo por sua vida, solicitou aos soldados que alguém se dirigisse até Sebastião Antunes da Silva, conhecido como Madureira, hoteleiro na Estação do Herval, pedindo para ele interceder a seu favor. O sargento Guilhermino foi, então, até a casa dele e, em nome da vítima, apelou para que ele fosse testemunhar junto ao Capitão Cataldi, declarando ser o mártir uma pessoa inocente.

Madureira ignorou o motivo da prisão de Oscar e recusou-se a ir em seu socorro, alegando estar muito ocupado. O Sargento Guilhermino insistiu para que ele fosse testemunhar, pois, caso contrário, Oscar seria assassinado a mando do Capitão Cataldi. Mesmo diante da constatação de que um crime contra um inocente seria cometido, Sebastião recusou-se novamente, alegando que Cataldi vivia sempre embriagado e era muito violento.

Por volta das 22 horas, Oscar foi retirado da barraca pelo Cabo Claudino. Como se estivessem em uma marcha fúnebre — o injustiçado sabia que eram seus últimos momentos de vida —, seguiram pelos trilhos da estrada de ferro por um bom trecho e desceram em direção à beira do Rio do Peixe. A vítima implorou para falar com o Capitão Cataldi, mas foi repreendida por Francellino, que o alvejou com dois tiros no peito.

Com o sangue jorrando de suas artérias, Oscar suplicou aos gritos: — Me acudam! Me matam inocentemente! Sebastião Madureira, por minha mãe! — E disse também: — Capitão Cataldi manda me matar sem eu fazer nada! Em seguida, um dos soldados gritou: — Atire mais para cima! O cabo Claudino alvejou a cabeça de Oscar; seus gritos de dor ecoaram pelo vale. Tombado e agonizante, ele deixou escapar os últimos gemidos roucos e abafados. O cabo Araújo saltou sobre o seu corpo e desferiu duas facadas no peito, pontuando assim o fim da sua história.

O corpo foi  carregado por Claudino, Francellino, Araújo e um soldado, até uma vala na beira do rio, sendo colocadas por cima dele, dez pedras.

O Assassinato de Carlos Schmidt

O segundo prisioneiro, Carlos Schmidt, foi retirado da barraca entre duas e três horas da madrugada. O cabo Claudino foi buscar o prisioneiro. Amarrou-o e, com o revólver em sua boca, levou-o até a margem do rio. Seguiram acompanhados pelos cabos Araújo e Francellino, e por um soldado. Antes de executá-lo, fizeram-lhe uma série de perguntas. Claudino degolou-o e retirou diversos papéis dos bolsos do cadáver. Em seguida, jogaram o corpo em uma cavidade profunda.

Corpo e cabeça de Oscar jogados no Rio do Peixe

No dia seguinte, Cataldi ordenou que seus soldados separassem a cabeça de Oscar do tronco e a lançassem no Rio do Peixe. Algum tempo depois, mandou amarrar uma pedra de cerca de trinta quilos ao corpo do moço e atirá-lo em um local onde a profundidade era considerável.

Ignacio de Carvalho Filho

Uma semana após os assassinatos, chegou à Estação do Herval Ignacio de Carvalho Filho, irmão de Oscar. No dia seguinte à sua chegada, turmeiros da Estrada de Ferro encontraram, a cerca de um quilômetro da estação e às margens da linha férrea, o cadáver de um homem cuja cabeça havia sido decepada e com o tronco cheio de equimoses, resultado de espancamento. A cabeça não foi encontrada, mas, pela roupa que estava usando, o corpo foi identificado como sendo o de Carlos Schmidt.

Uma semana depois desse episódio, a polícia catarinense — guiada pelos soldados que, a mando do capitão facínora, jogaram o corpo de Oscar Carvalho nas águas, e por Ignacio de Carvalho — conseguiu retirar do rio o corpo da vítima indefesa, sem cabeça, apresentando dois ferimentos de bala e dois de punhal no tórax.

A corda e a pedra foram removidas para Curitibanos, onde foi instaurado o inquérito.

Fuga de Cataldi

Após o crime, o capitão Cataldi embarcou com os seus fiéis companheiros, o sargento Werner e o cabo Francellino dos Santos, rumo a Cruz Alta, no Rio Grande do Sul

A dez de junho, as autoridades civis de Campos Novos receberam notícias vagas, como que enviadas a medo, de assassinatos praticados no Herval por ordem do capitão Salvador de Aguiar Cataldi.

Nesse mesmo dia, a autoridade civil de Campos Novos começou a agir. O delegado Clementino Teixeira de Andrade deu início ao inquérito civil, ao mesmo tempo que de Curitiba chegou um oficial do Exército para proceder ao inquérito militar.

Julgamento de Cataldi e de seus comparsas

Em 1916, Cataldi, o 1º Sargento Luiz Carlos Werner, os cabos Claudino Corrêa e José Araújo de Oliveira, e o soldado Losgardo Antichel foram julgados por um Conselho de Guerra em Curitiba.

Cataldi — que, após o bárbaro crime, ainda havia sido promovido a Major Graduado Reformado do Exército — foi condenado a trinta anos de prisão. O Cabo Claudino foi condenado a dez anos de prisão, enquanto os demais réus foram absolvidos.

Houve apelação e o processo retornou à primeira instância para um novo julgamento em fevereiro de 1919, quando o Conselho de Guerra confirmou as sentenças originais. Diante disso, a defesa de Cataldi recorreu novamente ao Supremo Tribunal Militar que, ainda em 1919, em uma análise posterior, reformou a decisão e diminuiu sua pena para vinte e três anos e quatro meses de reclusão.

Em 1922, a defesa de Cataldi recorreu ao STF, entrando com um pedido de habeas corpus na tentativa de anular a condenação do Conselho de Guerra, alegando a incompetência da Justiça Militar. A estratégia era fazer o processo recomeçar do zero na Justiça Civil, onde o rito processual é mais lento e as brechas políticas da época poderiam facilitar a impunidade ou a prescrição do crime.

Em 3 de julho de 1922, o Supremo Tribunal Federal barrou a última manobra da defesa, negou o habeas corpus por unanimidade e manteve a condenação definitiva de Cataldi a vinte e três anos e quatro meses de reclusão sentenciado pela Justiça Militar.

Sobre a promoção de Cataldi

Foi uma estratégia jurídica e corporativista. Havia dois grandes motivos para o Exército fazer isso na época:

  • Elevação de Patente:  A elevação da patente de Cataldi de Capitão para Major não foi um reconhecimento, mas uma jogada política. Embora como capitão Cataldi já estivesse submetido à Justiça Militar, a promoção e reforma estratégica como major asseguraram a permanência definitiva do seu processo na esfera federal do Exército. Isso garantiu que, mesmo afastado da ativa, ele fosse julgado em Curitiba por um Conselho de Guerra composto por oficiais de alta patente.
  • Afastamento: Ao reformá-lo, o Exército selava em definitivo o seu afastamento da ativa e do comando de tropas na região do conflito. Mesmo com o capitão já tendo fugido para Cruz Alta, a reforma garantiu que ele não retornasse ao serviço ativo, evitando um desgaste político ainda maior para o exército diante de um crime tão bárbaro.

Possíveis motivos dos assassinatos

Conforme uma testemunha ouvida no julgamento de Cataldi e também o irmão da vítima, Ignacio de Carvalho Filho, o capitão Cataldi, quando era comandante do destacamento do Rio das Antas, perseguia uma mulher com propostas imorais. Ela se chamava Firmina e era amasiada de Oscar, que impediu a aproximação do capitão. Mas ficou uma dúvida pairando no ar: se foi vingança por causa de uma discussão com Oscar, por que Carlos Schmidt foi morto também?

Uma informação importante, que não foi relatada por nenhuma testemunha, mas que foi publicada no jornal Diário da Tarde em 7 de julho de 1915, é a de que Oscar, além de barbeiro por profissão, era fotógrafo. Ele acompanhava, desde o início da expedição, as forças militares do governo enviadas para Santa Catarina e para o Paraná para combater os insurgentes na Guerra do Contestado. Então, especulou-se também que Oscar poderia ter capturado imagens que comprometessem Cataldi e seus homens de confiança. De acordo com o Diário da Tarde, Cataldi tinha um grupo escolhido de praças, apelidados de “Mão Negra”, para a espionagem dentro do acampamento. Dentre eles estavam os cabos Claudino e Araújo e o sargento Francellino, os quais possuíam maiores regalias e estavam encarregados dos assassinatos.

 Relatório Final  da Apelação em 1919– Motivo reduzido a um  “Delírio Alcoólico”

Terminadas as falas de todas as testemunhas, foi escrito e assinado por Guilherme Elyseu Xavier Leal, major encarregado do inquérito, o seguinte relatório:

“Toda essa rápida resenha que acabamos de fazer, baseada no depoimento testemunhal, constante deste inquérito, nos leva à conclusão lógica e jurídica de que, sem motivos conhecidos, a não ser o delírio alcoólico, pois que a oitava  testemunha Sebastião Antunes da Silva, hoteleiro da estação do Herval, afirma que o Capitão Salvador de Aguiar Cataldi era de um gênio violento e costumava embriagar-se, no dia oito de junho deste ano, o mencionado Capitão mandou assassinar os civis Oscar Menezes de Carvalho e Carlos Schmidt, sendo mandatários desse monstruoso delito os sargentos Luis Carlos Werner e Francellino dos Santos, cabos de esquadra Claudino Correia e José Araujo de Oliveira e Soldados Salgado e Damaso da Maia, este por haver degolado o cadáver de Oscar de Carvalho segundo ouviu dizer a certa testemunha.”


Sobre o corpo de Oscar Carvalho ter saído ou não de Herval d’Oeste

Em matéria publicada no Jornal Commercio do Paraná e repostada no jornal O Estado (SC) em 12/08/1915, é relatado que Ignacio de Carvalho Filho visitou a redação do Jornal Commercio do Paraná com o intuito de agradecer a forma como o jornal relatou o crime praticado contra seu irmão. Na matéria consta que a corda e a pedra utilizadas para amarrar e jogar o corpo de Oscar no Rio do Peixe foram removidas para Curitibanos, onde prosseguia o inquérito. Nada é citado sobre o corpo de Oscar ter sido levado de volta à sua cidade natal.

Efetuei pesquisas sobre a possibilidade de o cadáver ter sido transportado em um vagão até sua cidade de origem. No Decreto nº 3792 de 8 de outubro de 1900, publicado antes da construção da ferrovia na região, consta esta instrução:

Instrucções regulamentares e tarifas para a Estrada de Ferro de Itararé ao Rio Uruguay. Art. 141. Os cadáveres só serão transportados em vagão fechado e ao preço da lotação completa do vagão, segundo a tarifa nº 6, com abatimento de 25%.

Também pesquisei em regulamentos de serviços sanitários:

Decreto nº 5.156, de 8 de março de 1904 — Novo regulamento aos serviços sanitários a cargo da União.

 Art. 2º. A direcção geral e execução dos serviços referidos competem exclusivamente à Directoria Geral de Saúde Pública, e por intermédio dela exercerá o Governo Federal a sua autoridade superior nas deliberações, ordens e providências, regulamentares ou extraordinárias, que afetem ou possam afetar a saúde pública.

Parte do texto sobre o estado do cadáver de Oscar retirado do Rio do Peixe, que consta na Apelação de 1919: “[…] o cadáver apresentava ligeiro estado de putrefação com mau cheiro […] despido o cadáver no qual faltava a cabeça verificaram que as mãos já começavam a perder a pele assim também como os pés; […] devido ao tempo frio e à imersão do cadáver na água, a morte tinha se dado a treze ou quatorze dias.”

Com o cadáver em estado de putrefação, podendo afetar a saúde pública, o inspetor sanitário, valendo-se do artigo 2º do decreto nº 5.156, poderia impedir que ele fosse transportado em um vagão até Porto União da Vitória.

Por que poderia afetar a saúde pública?

  • Liberação de microrganismos: durante a decomposição, bactérias proliferam rapidamente, há liberação de fluidos contaminantes e os tecidos entram em colapso biológico. Isso aumentava o risco de contaminação indireta (manuseio, contato com superfícies).
  • Gases da putrefação: o corpo em decomposição libera gases como amônia, sulfeto de hidrogênio (cheiro de “ovo podre”), metano e outros compostos orgânicos. Em um vagão fechado isso seria crítico: o ambiente poderia ficar insalubre rapidamente, o que seria altamente perigoso para os trabalhadores que fossem manipular o caixão na chegada em União da Vitória.

Então, além de ser necessário pagar o preço de uma lotação completa de um vagão para transportá-lo até Porto União da Vitória, havia o risco sanitário. Creio que tenha sido muito difícil que o corpo de Oscar Carvalho tenha saído de Herval d’Oeste.

Sobre a ceia servida pelo capitão Cataldi antes do fuzilamento de Oscar Carvalho e Carlos Schmidt:

Sob uma perspectiva antropológica, era comum que prisioneiros fossem alimentados antes da degola, pois vigorava um “código” naquele período que não permitia  degolar alguém de estômago vazio. Era uma tradição bárbara, herdada da Guerra dos Farrapos (1835–1845) e da Revolução Federalista (1893–1895), que determinava que as vítimas fossem alimentadas e, em seguida, fossem conduzidas ao mato para a execução.

Preservação do Túmulo do Oscar

O tempo passou, mas o Túmulo do Oscar permanece preservado. Há décadas, o cuidado com esse testemunho da nossa história atravessa gerações: hoje continua pelas mãos dedicadas de Cleonice Ramos — trabalho este iniciado por sua mãe. Se Herval d’Oeste ainda guarda essa página viva da nossa história, é graças à devoção e ao esforço dessas duas mulheres.

Marco da Guerra do Contestado

Os assassinatos brutais de Oscar de Menezes Carvalho e Carlos Schmidt foram cometidos durante a Guerra do Contestado — a mando de um capitão do Exército que comandava um destacamento militar enviado pelo governo federal para a Estação do Herval.

Apesar de o capitão Salvador de Aguiar Cataldi ter sido julgado por um Conselho Militar pelo assassinato de duas pessoas, pairava sobre ele a desconfiança de uma infinidade de outros crimes cometidos contra homens e mulheres — guerreiros ou não da Guerra do Contestado — que eram enviados à Estação do Herval e desapareciam sem deixar vestígios.

O túmulo do Oscar Carvalho, situado na Avenida Beira Rio em Herval d’Oeste, assume, sob esta perspectiva, a condição de marco da Guerra do Contestado. Representa, a partir de agora, não apenas o local onde descansam os restos mortais de um homem assassinado brutalmente, mas também um espaço que simboliza o destino de uma quantidade indefinida e desconhecida de pessoas que foram mortas em Herval d’Oeste por reivindicarem o seu direito à terra onde viviam e a uma vida digna.

É preciso olhar, a partir de agora, para o Túmulo de Oscar como um espaço de memória — um espaço que guarda a lembrança de um do episódio mais sangrento da história catarinense e, consequentemente, da história de Herval d’Oeste.

O Túmulo do Oscar precisa ser preservado.

Pesquisa  realizada na Hemeroteca Digital Brasileira, com foco nos jornais da época do crime — catarinenses, paranaenses e cariocas. A investigação também se apoiou na Revista de Direito Civil e nos anais do IV Colóquio de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), cujo tema foi “Conhecimento histórico é resistência: público, sensível e autônomo”. Os autos da apelação de 1919 serviram como base documental para a reconstrução dos fatos

Pesquisa e texto: Omar Dimbarre


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