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Crônica: São Valentim
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Crônica: São Valentim, comércio e a loja de perfumes

Crônica: São Valentim, comércio e a loja de perfumes

Éder Luiz

Éder Luiz

Crônica: São Valentim

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Por Pablo Casarino

São Valentim, comércio e a loja de perfumes

Era uma daquelas noites quentes de verão do Centro-Oeste do Estado de Minas Gerais quando as crianças brincavam alvoroçadas nas ruas tal qual andorinhas ao aproximar uma tempestade.

Em pé de costas, uma criança, ou pode-se dizer, pré, bem pré, adolescente tinha os olhos tapados, enquanto um grupo em linha segurava a ansiedade.

E começava a brincadeira:

“- Caí no poço.

– Quem me acode?

– Meu bem que pode.

– Qual é seu bem? É esse?

– Não.

– É esse?

– Não.

– É esse?

– Sim.

– Pêra, uva, maça ou salada mista?”

Após a definição de quem seria seu bem, a que se encontrava às cegas dizia o nome de uma fruta para decidir como seria salvo: pêra correspondendo a um aperto de mãos; uva, a um abraço; maçã, a um beijo no rosto; e salada mista, à soma dos três anteriores. Tinha o beijo na boca que, apesar de ser o mais esperado, não me lembro qual era a fruta correspondente.

Foi dessa forma que muitas das crianças principalmente dos anos 70, 80 e 90, deram seu primeiro beijo. Sentiram pela primeira vez as pernas amolecerem e aquele frio na espinha.

E nesse contexto se iniciava alguns namoricos.  Alguns dos namoricos se transformaram em namoros e até matrimônio com direito a filhos, cachorro e papagaio.

E só pode ter sido de brincadeira também, que em 1949 um empresário chamado João Dória, trouxe do exterior a ideia de se comemorar no Brasil o chamado: Dia dos Namorados ou Dia de São Valentim. A comemoração pelo mundo remonta os rituais pagãos da Roma antiga.

Um tal imperador romano chamado Claudio II, proibia os casamentos já que, em seu cérebro de ervilha, fervilhava a ideia de que homens sem vínculos familiares eram melhores soldados.

O corajoso São Valentim, contrariando a vontade do imperador, realizava casamentos clandestinos para delírio dos jovens noivos daquele tempo em que pensar e sonhar era uma subversão. Por isso a homenagem ao aniversário de morte do santo, no dia dos casais apaixonados.

Enquanto em outros países o Valentine's Day é comemorado no dia 14 de fevereiro, no país das araras, que falando em amor escolhem apenas um par durante toda sua vida, a data foi modificada para o dia 12 de junho e o santo foi trocado para Santo Antônio, o santo “casamenteiro”.

E parado me perguntando o porquê da escolha do mês de junho, descobri o que eu já sabia, mas não tinha lido. Junho foi escolhido propositadamente já que o mês é conhecido por ser fraco em termos de venda no comércio. Bingo!!!

Como acontece no dia das mães, dos pais e das crianças, o dia dos namorados é sim, puramente comercial. Mas quanto vale sonhar? Todo dia é dia das mães, pai, criança ou namorados. Porém que as datas sirvam para se exagerar nos beijos e abraços.

Carlos Drummond Andrade já dizia que – “Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia”.

Pois sim. O mestre das palavras sabia o que dizia. Triste de quem não coloca um pouco de romantismo em todas as tarefas do dia a dia. E outra vez voltando ao fator comércio, um dos assuntos que povoou as redes sociais nos últimos dias foi o do tal comercial da loja de perfumes.

Os comentários se multiplicavam. Alguns proferidos por pessoas que muito provavelmente teriam herdado o cérebro do tal imperador dos longínquos anos. Controvérsias a parte, a data é para cada um comemorar com quem quiser da forma que quiser e onde quiser.

Que o amor seja virtual, real, aos moldes da tradicional família brasileira ou como dizem: amores modernos. A regra principal é que seja amor.

 

Pablo Casarino, jornalista, poeta e cronista

Natural do município de Campo Belo, Sul do Estado de Minas Gerais, Pablo Casarino cursou Comunicação Social, habilitação em jornalismo na Pontifícia Universidade Católica (PUC/MG). Amante das artes, desde criança fez da produção de crônicas e poesias seu passa tempo.

Enquanto assessor de comunicação na Assembléia Legislativa de Minas Gerais pôde participar de Saraus e conhecer a efervescência do cenário cultural de Belo Horizonte.

Em suas andanças morou em São Paulo e outros municípios do país, sempre buscando absorver os costumes e a cultura dos lugares por onde passava.

Foi docente do curso de comunicação social em Moçambique na África, estreitando os laços com a poesia de escritores daquele continente.

Ficou em terceiro lugar na premiação do 1º Prêmio Internacional de Poesia – Casa de Cultura Manoel Antônio de Carvalho (Casa Mac) de Belo Horizonte, com o poema Permissão, publicado em uma antologia.

Há três anos reside em Santa Catarina. Atualmente é jornalista da Valemais Comunicação e do Portal Éder Luiz.


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