Os ventos do tempo que arrastam dias, anos e décadas consigo, abriram passagem para o ano de 1990, que chegou causando uma ruptura com a hipnótica década de 80. Mandela foi libertado da prisão após 27 anos, o Muro de Berlim caiu e o Telescópio Espacial Hubble foi lançado ao espaço. Uma nova época se iniciava; a década da popularização da tecnologia digital e das locadoras de vídeos chegava com a corda toda.
Em meio a essa mudança de comportamento, nem tudo era exatamente pioneiro: a nostalgia de momentos que se mantêm vivos na memória afetiva encontrou espaço para cravar seus alicerces em meio a tantas mudanças que explodiam ao redor do mundo. A banda gaúcha de rock oitentista Engenheiros do Hawaii estourou nas rádios com a regravação do clássico sessentista “Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles e Os Rolling Stones”.
O estribilho da música costumava ecoar pela rua central de Ibicaré. Às vezes, pegava carona na brisa que soprava e viajava pela cidade, se infiltrando pelas janelas e invadindo as casas. O vocal era entoado por um menino de sete anos que, munido de um pedaço de madeira, idealizava-se tocando guitarra. Jesse Thibes era acompanhado em seu devaneio com dois amigos: Robi , empunhando uma ripa, no baixo e Muti, com pedras e varetas, fazendo a vez do baterista.
O palco, lugar sagrado onde a arte encontra seu refúgio, surgia de improviso: Era em uma rampa de lavar caminhões onde o conjunto infantil deixava a imaginação voar. Ali, o menino Jesse, deixou registradas suas primeiras pegadas na jornada musical que iria trilhar.
O futuro músico cresceu em um ambiente familiar cercado por música sertaneja de raiz e gauchesca, e esta influência refletiu em suas primeiras aquisições musicais. Lá, nos seus 9 anos de idade, comprou uma fita K7 do álbum Planeta Azul da dupla Chitãozinho e Xororó.
Com seu Walkman pendurado na cintura, desfilava pela cidade tal qual um superstar após conquistar o estrelato.
Planeta Azul ressou exaustivamente, até que, Jesse, tomado pelo desejo de inundar seus dias com novas músicas, voltou a loja de discos. A imagem de um bebê nu nadando com os braços estendidos debaixo da água de um azul intenso, e uma nota de um dólar em sua frente, estampando a capa de uma fita cassete, o deixou fascinado. Não fazia ideia do que era, mas aquela visão anarquizou sua imaginação.
O tempo seguiu sua viagem, e a época da adolescência com sua busca por uma identidade, sorrateiramente foi substituindo a infância. Os 15 anos chegaram e junto com ele, os encontros com amigos, as divagações e os sonhos. A ideia de montar uma banda, surgiu junto com os embalos de uma noite qualquer. “- Vamos montar uma banda? E eu já me prontifiquei para ser o guitarrista. Mas não sabia tocar. Ninguém sabia tocar nada!”
Nesta mesma semana, um amigo conseguiu um professor de violão na Vila Alemanha, em Luzerna. E as aulas iniciaram. Todas as terças e quintas-feiras de manhã, jogava o violão nas costas e junto com o amigo Helton, seguia para a beira da estrada em busca de uma carona. Não havia tempo ruim que impedisse os jovens sonhadores de desvendar o segredo que se escondia por trás de cada corda, para então, como um tecelão, entrelaçar notas para construir melodias. Nem chuva, nem trovoadas, nem temporal os impedia de prosseguir com o seu aprendizado. Apanhavam um guarda-chuva, e se deslocavam até o seu tradicional ponto, e em meio ao aguaceiro que desandava do céu, lá estavam os dois jovens aprendizes, com os braços esticados e o polegar em riste, aguardando que algum navegante do asfalto os acolhesse e os encaminhasse até seu mestre musical.
Durante três anos, entre 1997 e 1999, este ritual se repetiu. Os dias cinzentos e frios invernais do ano 2000 se debruçavam sobre o sul, quando nasceu a primeira banda. Sempre muito dedicado, Jesse já tocava guitarra, treinando efusivamente. As apresentações foram acontecendo: Luzerna, Água Doce, Tangará e na sua terra natal.
Em Ibicaré, a temperatura gelada fervia. As noites de sábado passaram a ser agitadas pela primeira banda de rock da cidade, que tocava de maneira febril por até 4 horas. O público delirava.
As flores explodiram com a chegada da primavera. O inverno caloroso daquele ano se despediu, jogou uma mochila nas costas e foi embora. E junto, levou o vocalista do grupo, determinando assim seu fim. Entretanto, os obstáculos vencidos pavimentaram um pouco mais da estrada, Jesse continuou a tocar, em busca de ampliar seu conhecimento foi atrás de novos professores e seguiu rumo a um Conservatório Musical em Joaçaba.
Jesse passou a ensinar violão para seu primo, Thiago Thomas, conhecido popularmente como Butt, e, paralelamente, aprendia a tocar baixo. O desejo de se tornarem compositores abraçou a trajetória dos dois músicos, que idealizavam também um projeto autoral. Acabou nascendo uma banda cover, mas durou pouco tempo, e logo, um ponto final foi colocado em sua história. No entanto, a vontade de compor manteve-se viva, e muitas das músicas criadas neste período ainda estão guardadas, e no momento oportuno, o músico pretende lançar.
As dificuldades encontradas em uma época em que a comunicação era limitada tornaram-se um percalço na trajetória da dupla. Eles tinham dificuldades em encontrar vocalistas, bateristas e, principalmente, parceiros com afinidade. Todos esses entraves provocaram um desgaste emocional muito grande, e Thiago acabou desistindo.
Em 2012, a mudança de moradia para Joaçaba abriu uma nova página nesta história. Novas amizades e o entrosamento com outros músicos resultaram no convite para tocar em algumas bandas, e novas possibilidades se abriram. Contudo, eram covers e o sonho de uma banda com músicas autorais continuava vivo.
O cansaço de tocar composições de outros artistas, aliado à frustração de não conseguir realizar seus objetivos, foi aos poucos minando seus dias, até o colapso.
As fortes rajadas de ar que chegavam a cada novo agosto, arrastavam consigo o tempo, que, seguindo seu curso, ia costurando novas histórias. A chegada da década de 20 anunciou o seu retorno às origens.
E foi em sua terra natal que um lampejo de luz rebentou em seu caminho: não mais montar uma banda própria, mas sim continuar desenvolvendo seu trabalho com convidados. Assim nasceu o Mr. Jesse. E as águas que levam o curso da sua arte começaram a fluir. Já são cinco músicas lançadas, com várias outras na fila, planejadas para saírem do papel a curto e médio prazo.
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