Foto: TV Globo
Quase um ano após o acidente que vitimou 62 pessoas em Vinhedo (SP), o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou, nesta quinta-feira (31), o relatório final sobre a queda do avião da Voepass. O documento aponta uma combinação de fatores que contribuíram para a tragédia, envolvendo falhas da companhia aérea, da tripulação e também da fiscalização exercida pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
O acidente ocorreu em 9 de agosto de 2024 e é considerado o maior desastre da aviação comercial brasileira desde o acidente da TAM, em 2007.
Segundo o relatório apresentado pela Força Aérea Brasileira (FAB), a investigação identificou problemas operacionais recorrentes na empresa, deficiência nos procedimentos de manutenção e falhas no cumprimento de protocolos de segurança durante o voo.
Cultura de tolerância a irregularidades
Durante a apresentação do relatório, o investigador responsável pelo caso, tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, afirmou que a investigação revelou uma “cultura de normalização de desvios” dentro da companhia aérea.
Para chegar às conclusões, o Cenipa analisou 1.206 voos realizados pela aeronave e pela empresa entre agosto de 2023 e o dia do acidente, além de documentos técnicos, registros de manutenção, dados da caixa-preta e depoimentos.
Avião não deveria ter decolado
Um dos principais pontos destacados no relatório é que a aeronave possuía uma falha no sistema do limpador de para-brisa, condição que, segundo os procedimentos operacionais, impediria a realização de voos quando houvesse previsão de chuva.
Mesmo assim, o avião decolou e permaneceu entre oito e dez minutos em uma região com condições severas para formação de gelo.
Relembre
Antes da partida de Cascavel (PR) com destino a Guarulhos (SP), a aeronave apresentava dez itens pendentes de manutenção, incluindo o problema no limpador de para-brisa.
Problemas já haviam sido identificados
A investigação também revelou que a Anac já havia encontrado diversas irregularidades durante auditorias realizadas antes do acidente.
Entre os problemas apontados estavam falhas na manutenção das aeronaves, deficiência no controle da rastreabilidade de componentes e o hábito de registrar informalmente defeitos técnicos — ou, em alguns casos, simplesmente deixar de registrá-los.
Apesar dessas constatações, o Cenipa concluiu que as informações levantadas durante as inspeções não resultaram em medidas suficientes para reduzir os riscos operacionais.
Sistema de degelo apresentou falhas
Outro aspecto destacado pela investigação envolve o sistema responsável por evitar o acúmulo de gelo nas asas.
Segundo o relatório, a aeronave apresentou problemas nesse equipamento durante dois voos realizados na véspera do acidente. Entretanto, essas falhas não foram registradas no diário de bordo pela tripulação responsável.
Em uma dessas operações, realizada entre Guarulhos e Ribeirão Preto, o sistema de degelo deixou de funcionar corretamente, mas a ocorrência não foi oficialmente comunicada para manutenção.
Caixa-preta mostra distração dos pilotos
A análise das gravações da cabine revelou que, durante o voo que terminou na queda da aeronave, os pilotos conversavam sobre assuntos particulares enquanto diversos alertas de formação de gelo eram emitidos pelo sistema da aeronave.
O equipamento acionou repetidamente o aviso eletrônico que indica condições favoráveis ao acúmulo de gelo e que exige procedimentos imediatos por parte da tripulação, como o acionamento do sistema antigelo e ajustes na velocidade da aeronave.
De acordo com o investigador responsável, esses procedimentos não foram adotados no momento adequado.
O relatório ainda reforça que, logo no início do voo, já havia sido identificado um problema relacionado ao sistema de proteção contra gelo, informação que já havia aparecido no relatório preliminar divulgado pelo Cenipa em agosto de 2024.
Empresa ainda vai se manifestar
Após a divulgação das conclusões, a Voepass informou, por meio de nota, que somente comentará oficialmente o conteúdo após ter acesso à íntegra do relatório final.
O Cenipa destacou que o objetivo da investigação é identificar fatores que contribuíram para o acidente e emitir recomendações de segurança para evitar novas ocorrências, sem atribuir responsabilidade civil ou criminal. Essas eventuais responsabilizações são analisadas em processos conduzidos por outros órgãos competentes.
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